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janeiro 19, 2009

"Peões agredidos e detidos pela polícia na Zona Pedonal de Almada"

Transcrevemos sem mais comentários (além da expressão da nossa indignação e da nossa solidariedade com as pessoas agredidas e detidas )do blog da associação GAIA (http://gaia.org.pt/node/14726)o seguinte texto:

"Relato dos acontecimentos na zona pedonal de Almada no dia 16 de
Janeiro"

"Quando a cidadania fica refém da intolerância

Ontem fui relembrada pouco suavemente de que o inimigo número um de
qualquer cidadã activa não são os problemas ambientais ou mesmo
sociais, é antes de mais a intolerância.

Convidada para participar numa acção de celebração e defesa da nova zona pedonal de Almada, contestada um pouco por todos por razões contradictórias,enfiei os patins num saco, fui buscar a minha filha à escola e apanhei comboio e metro para chegar ao entretanto ínfamo local. Estava a decorrer um lanche popular, um grupo de pessoas jogavam jogos tradicionais e de vez em quando tocava uma banda de samba. Outros distribuíam folhetos aos condutores, que achei surpreendentemente numerosos. Basicamente está sempre um carro ou autocarro a passar,poucos respeitam o limite de 10 km e é preciso muita cautela para não ser atropelado.

Mas apesar do trânsito me suscitar críticas à câmara e à polícia por não o controlar, como sabia que estas entidades já tinham sido abordadas, tratava se agora de sensibilizar os transeúntes e ganhar mais massa crítica para defender uma zona pedonal mais verdadeira. Em nenhum momento havia mais de 20 pessoas concentradas no local, metade ou mais mulheres, várias crianças, e ainda idosos que assistiam aos festejos.

Tudo correu bem durante 2 horas, com condutores mais ou menos sensíveis à questão e conversas perfeitamente cívicas com os que passavam, incluindo pais da escola da zona, condutores de autocarros e agentes.

Tudo correu mal quando a dada altura fica evidente a presença de um corpo de intervenção com 8 elementos, a observar e comentar a banda samba que inicia uma marcha à volta da praça, inevitavelmente atrasando o trânsito que para além de ser denso, fazia ouvidos de mercador ao limite de velocidade.

Quando se acumulam 3 carros atrás da banda, onde a minha filha de 8 anos estava muito feliz a tocar um tambor, a polícia de choque resolve fazer uma carga sem aviso. Os agentes atiram-se à dúzia de musicantes rodeados por transeúntes e começam a empurrar com extrema violência. O facto de haver pessoas a filmar e fotografar incendiou-os ainda mais. Foram para o chão entre outros uma mulher com bébé ao colo e uma senhora com mais idade que acabou por ficar com um traumatismo craniano. Um rapaz franzino que tentou proteger a mulher com bébé levou uma cacetada que lhe abriu a cabeça (levou 8 pontos). Outra pessoa que estava a filmar e não quis entregar a camera, foi detida e arrastada para a carrinha. A polícia começou a apagar as fotos das pessoas que estavam a registar o acontecimento e foi aí que eu levei um golpe violento (de bastão) na mão que segurava a camera. Por pouco não me partiu os dedos mas deixou-os em mau estado, ficando a minha camera para a história.

(ver abaixo continuação do texto na "Entrada Estendida")

Problema do polícia resolvido. Durante 15 minutos muito tensos nem
sabia da minha filha, que felizmente é forte e corajosa e fugiu dos
policias enraivecidos, refugiando-se com perfeitos estranhos.

A cena só acalmou com a chegada de mais polícias.. de trânsito.
Estes, como seria normal, focavam a sua atenção na população assustada
e indignada, chamaram ambulâncias e trataram de acalmar as pessoas. Um
deles passou 10 minutos a sossegar a minha filha, que chorava
convulsivamente, evitando assim, esperemos, que ela passe a ter medo de fardas. Eu fui atendida, ao que me parece, por um polícia à paisana,que me atou os dedos e me levou à ambulância. Fui para o hospital com o rapaz do golpe na cabeça, mas não sem termos levado com um rio de insultos dos polícias de intervenção que pretendiam justificar a sua acção. Os comentários foram tão baixos que me custa repeti-los. E não pararam alí. Ainda detiveram uma senhora dos seus pelo menos 70 anos e que nada tinha a ver com a acção, só protestava a actuação da polícia.
O rapaz do golpe foi detido no hospital por 5 agentes, por injúria
(tinha pedido ainda no local a um agente para se identificar, depois de ter assegurado que se identificaria também. Só o comandante da 2ª
divisão acabou por se identificar, mas não deu mais que este título..).
Meio zonzo, acabado de ser suturado, o pobre rapaz teve que se sujeitar a ser revistado, algemado e levado, com a cara aterrada, para a esquadra do Pragal. Devia ser muito perigoso para justificar tanta despesa. Ainda me pediu para ligar à mãe a dizer que ia ficar com amigos hoje, para ela não se enervar.

É assustador pensar que em Portugal se magoa peões para defender automobilistas que, trancados nos seus panzerwagens, não corriam perigo absolutamente nenhum. Ainda mais custa realizar que a polícia portuguesa não sabe ler situações, não distingue uma dúzia de jovens, mulheres e crianças rodeados por idosos e cujas armas eram tambores e flyers, de um grupo de terroristas com caçadeiras. Imaginem agora todas as possíveis situações intermédias..

É legítimo não concordar com os argumentos dos cidadãos que resolveram
celebrar a zona pedonal. Apresentem outros, discutam, cheguem a novas
conclusões. Mas exprimir a discordância e o desconhecimento de eventos
coloridos, tão comuns noutras cidades da Europa, com violência misturada com um desprezo que roça o ódio, é descer às profundezas da
ignorância. Coloca o relógio 50 anos para trás. Fere-nos como
civilização.

Apesar de ser fácil desanimar quando se é envolvida numa situação de tão profunda injustiça, fácil também ganhar medo em exprimir a nossa opinião, eu recuso-me a ser vítima da intolerância.
Por isso escrevo este post, partilhando a má experiência com quem
quiser ouvir, apresento as queixas que tiver que apresentar e sigo
caminhando, com a mesma intenção de ser útil aos outros e de desejar a
sua e a minha felicidade.

Lanka Horstink"

nota final:
E com tudo isto resta a interrogação:entre o Estado que manda, a Polícia que cumpre ordens e as pessoas que são reprimidas num protesto pacífico ONDE ESTÃO OS TERRORISTAS ???

Publicado por terraviva às janeiro 19, 2009 01:06 AM

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Comentários

Lamentável. Faz lembrar os anos 60.

Publicado por: João Norte às janeiro 19, 2009 12:50 PM

Pior do que o ocorrido é saber que não é um caso isolado.

Publicado por: Francis David às janeiro 29, 2009 11:36 AM

...E porque não é um caso isolado haverá que responder também de forma não isolada. Até porque, para além dos relatórios da Amnistia Internacional sobre Portugal, as situações de (ab)uso de autoridade repetem-se quase todos os dias! Aqui há uns anos na Alemanha criou-se uma "Iniciativa de Cidadã/o/s" que se chamava "Cidadãos Observam a Polícia" ("Buerger beobachten Polizei").Talvez não fosse má ideia começar algo no género por cá...

J.R.

Publicado por: Anonymous às janeiro 30, 2009 03:39 AM

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