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março 28, 2006

Uma boa notícia

a Convenção de Biodiversidade da ONU, que decorre em Curitiba (Brasil) até 31 do corrente mês, rejeitou, na passada sexta-feira, por unanimidade, a abordagem "caso a caso" da utilização da tecnologia "terminator", mantendo, consequentemente, e em pleno vigor, a moratória adoptada em 2000.

Retirado da lista de correio ogm_pt

Publicado por terraviva às 10:46 AM | Comentários (201)

A emergência do racismo

«Embora a generalidade dos grupos, em todas as sociedades do passado, tenham demonstrado várias formas de etnocentrismo, o mesmo não se pode dizer do racismo, que não é uma característica universal das sociedades humanas (Banks, 1995: 16).

O racismo é fundamentalmente um produto da expansão Ocidental no século XIX na África, Ásia, Austrália e América. Os europeus precisavam de uma ideologia justificativa para a conquista dos territórios e a colonização dos nativos, então designados como "selvagens".

Esta função ideológica do racismo, servindo formas de dominação, veio a ser novamente utilizada, em grande escala, pelos nazis durante o período da 2ª Guerra Mundial.

As leis de Nuremberg de 1935, que estão na génese das práticas de genocídio, guerra e destruição que se arrastaram por toda uma década, ficaram-se a dever a H. S. Chamberlain (1855-1927) que exercia grande influência em Hitler. Chamberlain era um dos discípulos de Gobineau (1816-1882) — pai da escola antroporracial. é aqui que se encontram os fundamentos das teorias racistas dos nazis. Gobineau, nos 4 volumes do "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas", defendeu a importância exclusiva do factor raça na determinação do comportamento humano e na organização dos sistemas sociais. Tendo como ponto de partida a Frenologia, muito em voga nos inícios do século XIX, que produzia inferências sobre as aptidões humanas, mentais e comportamentais, a partir da forma exterior do crânio (ainda hoje se encontram vestígios desta pseudo-ciência na linguagem corrente quando se fala na "bossa dos matemáticos" ou na "testa alta dos intelectuais"), Gobineau e seus seguidores estabeleceram hierarquias raciais com base no índice cefálico (construído a partir das medições dos diâmetros antero-posterior e transverso) e pugnaram pela supremacia dos dolicocéfalos.

Comunidade internacional nega validade às teses racistas

Esta concepção falsa e estereotipada das populações humanas perdurou até ao fim da 2ª Guerra Mundial após o que, e mercê das atrocidades reconhecidamente cometidas pelos nazis, em particular, sobre os judeus e os ciganos, o mundo científico, sob os auspícios da UNESCO, foi chamado a pronunciar-se sobre a definição dos conceitos de raça e de diferenças raciais.
Surgem então diversas declarações, que vão sendo revistas à luz dos avanços no campo da Biologia e mais especificamente no domínio da Genética, das quais destacamos:
- Declaração de 1950, redigida em Paris, e que contou, entre os 8 subscritores, com a participação de F. Frazier (EUA) e Claude Lévi-Strauss (França). Uma importante conclusão reporta-se às questões terminológicas: «Os graves erros que resultaram do emprego da palavra "raça" na linguagem corrente levam a desejar que se renuncie completamente a este termo quando se aplica a espécie humana e que se adopte a expressão "grupos étnicos".» - Declaração de 1951, subscrita também em Paris, na qual participaram 14 cientistas, entre os quais H.L. Shapiro (EUA) e H.V.Vallois (França).
- Declaração de 1964, resultante da reunião de Moscovo, onde estiveram presentes 22 especialistas, entre os quais H. Suzuki (Japão) e B. Rensch (RFA). Nela se realça a diversidade genética inerente a cada população humana e, consequentemente, a inexistência de raças puras. Por outro lado, sublinha-se que «os diversos povos da terra parecem possuir iguais potencialidades biológicas para alcançar qualquer nível de civilização» e que «não existe nenhuma justificação para os conceitos "raças superiores" e "raças inferiores"».
Estas posições da comunidade científica vieram a ter expressão, no domínio político, em 1965, com a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial onde se reconhece que «as doutrinas da superioridade fundada na diferenças entre raças são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas e perigosas e que nada pode justificar, onde quer que seja, a discriminação racial, nem em teoria nem na prática».

Excerto de "RACISMO: o eterno retorno?", Luís Souta, Emiltina Matos

Publicado por terraviva às 01:37 AM | Comentários (16)

março 22, 2006

(((((((([ S.O.S. Islândia ]))))))))

Exibição de um filme, seguido de uma conversa com malta que anda a fazer um tour europeu para divulgar a situação ecológica e a luta contra a destruição das regiões montanhosas islandesas onde se encontram as últimas extensão de terrenos selvagens de natureza virgem existentes na Europa Ocidental.

As corporações multinacionais estão a investir nos recursos hídricos da Islândia, tendo dado inicio à construção de barragens gigantescas. Estas construções, para além de ilegais, destinam-se a produzir electricidade para abastecer exclusivamente a indústria gigante de fundição de alumínio.

Nem um kilowatt de electricidade será destinado ao uso doméstico.

Estas multinacionais vândalas - Bechtel, Río Tinto Zinc (RTZ) - , apoiadas pelo governo, estão a ponto de produzir uma catástrofe ambiental de proporções inigualáveis, destruindo regiões de uma beleza única, com caracteristicas botânicas, geológicas, biológicas
e ecológicas de importancia científica universal!

Este encontro faz parte de uma campanha de sensibilização que está a ser levado a cabo em toda a Europa, de maneira a estender os protestos.

Está aqui o cartaz deste encontro!!!

Aparece.... Divulga!!!

(((( www.savingiceland.org ))))

quinta-feira,
dia 23 de Março a partir das 21 horas,
na Terra Viva!

Publicado por terraviva às 12:16 AM | Comentários (66)

março 21, 2006

Petição contra o nuclear

Algumas organizações europeias, apoiadas por mais de outras 150 ONGs, estão a levar a cabo uma petição contra o nuclear. Neste momento o número ainda vai em 280.000 mas a petição vai durar até Outubro. Podes assinar aqui.

LF

Publicado por terraviva às 12:48 AM | Comentários (1)

março 16, 2006

Avarias entre o Real e o Imaginário

Vai ser inaugurada este Sábado no Espaço Musas uma Mostra de desenhos e Pinturas de dois activistas do Terra Viva!

A mostra dá pelo nome de “Avarias entre o Real e o Imaginário” e é o produto criativo de Jesus Domingues e Manuel Horta. Um abraço aos dois companheiros e desejos que corra tudo bem.

Era porreiro pôr aqui umas imagens do vosso trabalho. Pensem nisso!

LF

Publicado por terraviva às 06:32 PM | Comentários (2)

Libertália 23

Vai-se realizar no Espaço Musas uma conversa sobre o Fórum Digital Libertália 23, no sábado 18 de Março, apartir das 15 horas e pela tarde fora.

Esta conversa insere-se numa série de conversas projectadas sobre as questões das patentes no software e criações digitais, inseridas no festival “COPYriot - Gente sem Patente”

Cartaz

Neste primeiro encontro pretende-se falar sobre ideias e projectos de activismo utilizando as ferramentas digitais e discutir as possibilidades que estas permitem.
Estarão presentes vários colectivos e indivíduos que tem desenvolvido ideias nesta área.

LF

Publicado por terraviva às 06:24 PM | Comentários (60)

março 13, 2006

Mother Earth

Capa da revista Mother Earth. Polícia com a pistola na mão a vigiar um portão e um muro alto
O Pistoleiro - De guarda para se certificar que a propriedade continue roubada

Fez no dia 1 deste mês 100 anos que saiu o primeiro número da importante revista Mother Earth, dedicada à ciência social e literatura e que exerceu grande influência n@s anarquistas norte-american@s. A publicação é da responsabilidade da anarco-feminista Emma Goldman.

«A história diz-nos que foi por seus próprios esforços que em toda a época @s oprimid@s realmente se libertaram de seus senhores. É absolutamente necessário que a mulher guarde essa lição: que a sua liberdade ampliar-se-á onde se ampliar o seu poder de se libertar a si mesma»
A tragédia da emancipação feminina, Mother Earth, 1906

Adaptado da Agenda Libertária do IEL - Instituto de Estudos Libertários

LF

Publicado por terraviva às 12:36 PM | Comentários (121)

março 08, 2006

Porquê o dia 8 de Março?

Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".

No século XIX, as mulheres lutaram pelo direito ao sufrágio. Na década de 60, discutia-se a conquista do espaço público. Será que, nos dias que correm, ainda faz sentido um dia internacional da mulher?

Muitos dirão que o dia internacional da mulher perdeu o seu sentido porque homens e mulheres gozam dos mesmos direitos. A ignorância é ousada!

Apesar dos direitos conquistados as mulheres continuam a ser vítimas de discriminação, de violência doméstica, de exploração laboral, sexual.....

Em cada residência, a brutalidade tornou-se a principal causa de invalidez e de mortalidade.
Conforme os países, de 25% a 50% das mulheres são vítimas de maus-tratos. Em Portugal, por exemplo, 52,8% das mulheres declaram ter sido objecto de violência por parte do marido, namorado ou amante. Na Alemanha, três mulheres são assassinadas a cada quatro dias por homens que viviam com elas, o que representa 300 por ano. Na Grã-Bretanha, uma mulher é assassinada, nas mesmas circunstâncias, a cada três dias. Em Espanha, uma a cada quatro dias, quase cem por ano. Em França, em decorrência de agressões masculinas no lar, morrem seis mulheres por mês – uma a cada cinco dias.
Considerando a totalidade dos 15 Estados da União Europeia (antes da ampliação para 25), morrem mais de 600 mulheres por ano – quase duas por dia! – vítimas da brutalidade machista no seu círculo familiar.

A prostituição é o triunfo das desigualdades e injustiças sociais, uma prática quotidiana da discriminação, do peso das tradições, dos preconceitos, da cultura, dos papéis historicamente atribuídos.
O mundo com todos os seus níveis de subdesenvolvimento cruéis (de pobreza, cujas mulheres são as maiores vítimas) transforma-se numa reserva gigantesca de mulheres, jovens e crianças para a indústria global do sexo.
Segundo a ONU, quatro milhões de mulheres e raparigas são anualmente compradas em todo o mundo. Os traficantes romenos leiloam ucranianas, búlgaras, romenas e russas por 511,3 € a compradores que as violam e espancam, brutalizam e exploram de forma a domá-las através do terror.
As mulheres são assim reduzidas à escravatura que se torna um mercado forte e lucrativo.
A pobreza tem rosto de mulher! Por todo mundo, o número de mulheres pobres é muito superior ao do sexo oposto. Estas continuam a ocupar posições mais desfavoráveis que os homens ao nível das profissões, salário e desemprego. Portugal é o país da União Europeia com a maior taxa de pobreza, sendo as mulheres as mais atingidas. Exercendo o mesmo tipo de actividade profissional as mulheres ganham menos do que os homens, cerca de 20%. A somar a todas estas desigualdades, condições específicas da mulher como o período de gravidez e lactação, é motivo de pressões e despedimentos.

No conjunto da actividade profissional e da vida familiar as mulheres trabalham mais 2 horas por dia do que os homens, dedicando às tarefas domésticas mais tempo. São as mulheres que asseguram a quase totalidade dos cuidados diários a adultos e dependentes. Enquanto que os homens dispõem de uma hora a mais para actividades de lazer. Hoje em dia já se vai ouvindo falar que alguns homens até ajudam nas tarefas de casa, mas quando virá o dia em que as tarefas sejam realmente partilhadas, sem prejuízo de sobrecarga ou exploração da outra parte?

A mulher é a principal vítima da idealização que é feita a toda a hora de um ser feminino, lindíssimo e escultural, que na verdade não existe a não ser por trás das objectivas das câmaras. As indústrias da moda e da publicidade, a televisão, o negócio dos cosméticos, etc. tratam de impingir esse modelo a cada momento. Mulheres, particularmente jovens e adolescentes, vêem-se arrastadas para um ideal que lhes é exigido: um corpo inatingível e uma frescura que nada tem a ver com a vida atribulada do quotidiano. Esta exploração da imagem da mulher é utilizada como ferramenta inerte e fria que atropela a dignidade humana para que alguns possam simplesmente alcançar mais lucros.


Pois que se faça do dia internacional da mulher, não um dia que celebramos de ano a ano, mas façamo-lo todos os dias, lutando contra a injustiça, a violência, a desigualdade, a exploração...

Lembremos que as Burkas estão em toda a parte e que estas ocultam um rosto feminino.


(parte do texto resulta de uma recolha e montagem de textos e dados de diversas proveniências)

Maria Silva

Publicado por terraviva às 01:19 PM | Comentários (1048)

La Triste Vida de una Mujer

lo primero que aprende
es que no es un hombre
y tarde o temprano
el ser mujer
se vuelve un carga.

y tarde o temprano aprende
que conlleva beneficios
dolorosos y dolorosos
perjuicios
que debe combatir

ella entiende, de algún modo,
que el perjuicio mayor
es la sumisión, y tarde o temprano,
ella, se somete, de algún modo,
ella utiliza con paciencia e incomodidad
las dolorosas alternativas
ella se asusta y quiere
ser una mujer madura
y llega a ser mujer madura
y se asusta
de ser mujer madura.

aveces escoge, pero
principalmente es escogida
por uno o varios hombres
que se vuelven sus protectores,
sus destructores
sus maridos
y amantes
que encarnan para bien
o para mal
los distintos grados
de todo lo que pasa
entre un hombre
y una mujer.

aveces su cuerpo se abre
y deja salir un hijo
frecuentemente su cuerpo es
destrozado
con un dolor insoportable
aunque más frecuentemnte
su cuerpo es destrozado
con un dolor
soportable.

casi nunca o aveces o nunca o siempre
un hombre
penetra su cuerpo
por cien motivos
diferentes para ella
aunque nunca por amor
que ella de algún modo
busca
y de algún modo,
encuentra.

cuando ella ya ha sufrido
lo suficiente
y se desangra y no se desangra
y da a luz o aborta
y llora o no llora
desde el traje de novia
al luto de viuda
aprende
y cuando está cansada
aprende
que ya es vieja.

todo esto más temprano o más tarde
demasiado temprano
o demasiado tarde
y aprende
a conformarse a la vida
que una mujer vieja
de algún modo
vive.
en un mundo que desprecia
a las viejas
ella aprende a conformarse
a algo parecido a una vida
que nunca mereció,
a no ser que muera joven.

POEMA DE JUDITH MALINA (poeta, actriz, directora e produtora, anarquista, norte-americana, do século XX).

http://www.geocities.com/bakuninn/judit.htm

Maria Silva

Publicado por terraviva às 01:12 PM | Comentários (280)

março 04, 2006

Quinze possibilidades para escapar à armadilha climática

Por Yves Sciama

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Agir contra o aquecimento sim, mas como? Uma teoria pode ter a solução para reduzir as nossas emissões de CO2.

Se a necessidade de progredir cientificamente no espinhoso dossier do aquecimento climático não é contestada por ninguém, a questão mais importante no presente é: precisamos saber para agir? A isto, o recente comunicado comum das academias de ciências dos principais países do globo responde sem ambiguidades: «A compreensão científica das alterações climáticas é agora suficientemente clara para justificar que as nações ajam rapidamente. É vital que todas as nações identifiquem medidas eficazes, em termos de custo, que podem tomar agora, para contribuir para uma redução substancial e durável das emissões globais de gases de efeito de estufa.»

Jean-Marc Jancovici, autor de O futuro climático, uma obra de referência, vai mais longe com uma analogia: «É impossível dizer a que momento um fumador terá ultrapassado a fronteira do irreversível e terá grandes problemas futuros (cancro, enfarte, ataque cerebral, etc.) e, da mesma forma, é impossivel determinar cientificamente a qual momento ultrapassaremos o limite que nos assegura uma catástrofe num futuro mais ou menos longínquo.» E no entanto, à evidência, ninguém sugere que, para deixar de fumar, seja preciso esperar que sejam resolvidos todos os enigmas da cancerologia!

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500 ppm, o limite do perigo

Tomar desde já medidas? Sim, mas quais? Pois bem, um projecto emerge actualmente. Baptizado como a «teoria das cunhas de estabilização» (stabilization wedges), apareceu em 2004 na revista Science e, desde aí, o seu nome é cada vez mais evocado como uma achega particularmente pragmática e útil que permite a redução das nossas emissões. A tal ponto que esta teoria suscita interesse, mesmo no meio industrial, e recebeu uma homenagem entusiasta do presidente da Academia das ciências britânica, Lord May, aquando da conferência de Montréal sobre o clima, em Novembro de 2005.
Na origem desta teoria, encontramos Stephen Pacala e Robert Socolow, dois professores da universidade de Princeton, co-responsáveis dum vasto programa de pesquisa, sustentado financeiramente pelas multinacionais BP e Ford. A ideia? Examinar como a humanidade poderia concretamente impedir o CO2 atmosférico de duplicar a sua concentração pré-industrial até 2050, isto é, de atingir 500 partes por milhão (ppm) contra os 380 ppm de hoje. Este valor de 500 ppm é, com efeito, considerado pelos climatólogos como o ponto de entrada numa zona de perigo sério.
Entre os cenários possíveis, os dois investigadores retiveram o mais simples: o que visa a manter, à escala planetária, as emissões humanas no nível actual – 7 gigatoneladas (Gt) de carbono por ano (1) – durante o próximo meio século… antes de as diminuir pouco a pouco. Sim, mas desde há várias décadas, as nossas emissões aumentam 1,5% por ano. Se nada for feito (hipótese business as usual, negócio como de costume ou BAU), duplicarão até 2055, para atingir 14 Gt por ano. Para não chegar a esse ponto, são portanto cerca de 150Gt de carbono que se trata de impedir de chegar à atmosfera… Só que nenhuma medida tecnológica permite isoladamente atingir esse objectivo, nem mesmo pela metade. É por isso indispensável recorrer a um largo leque de soluções, e definir as políticas que serão cocktails dessas medidas.
Foi com essa ideia que Pascala e Socolow passaram em revista as principais pistas concretizáveis, esforçando-se por enumerar o maior número possivel de elementos concretos. Em particular, criaram uma unidade comum que permite comparar todas as soluções existentes. O nome dessa unidade? Trata-se da «cunha de estabilização», em referência à forma das cunhas dos lenhadores. Porquê? Porque representados graficamente, os efeitos de cada solução tomam a forma dum triângulo achatado que corresponde a 15% do objectivo. Dito de outra forma, ao retirar 7 «cunhas de estabilização» das nossas emissões teremos conseguido achatar a curva (ver infografia).
Para ficar o mais próximos da realidade, os dois investigadores fizeram a escolha de não especular sobre hipotéticas revoluções tecnológicas: «Cada elemento da lista já ultrapassou a etapa de experimentação em laboratório e de projecto de demonstração, esclarecem. Muitos estão já em acção em algum lugar a uma escala plenamente industrial.» Trata-se então simplesmente «duma mudança de escala no que já sabemos fazer». O resultado são quinze cunhas que Pascala e Socolow definiram, quando são necessárias sete, para sublinhar que existem formas muito diferentes de atingir o objectivo, segundo a forma como se gere o nuclear, o transporte rodoviário, etc. Aliás, certas medidas, se forem aplicadas a grande escala, podem permitir ganhar duas cunhas (ou, pelo contrário, somente uma fracção de cunha).

Menu de remédios

Por desejo dos dois investigadores, a lista de soluções não é exaustiva: outras cunhas se podem juntar às propostas. Em função da sua localização geográfica, do seu desenvolvimento tecnológico e das suas sensibilidades, os países podem fazer escolhas diferentes, negociar entre eles, ou adaptar a sua política aos novos desenvolvimentos científicos…
Ao mesmo tempo, esta teoria coloca o acento num ponto: é preciso agir desde já. Mesmo sendo ainda muito cedo para saber quais as pistas que se mostrarão mais frutíferas. A imagem da cunha foi aliás escolhida para exprimir a ideia de que cada uma das soluções deverá subir em potência. Trata-se então de começar o mais cedo possível a aplicar estes diferentes elementos, e depois ajustar as politicas enquanto se prossegue. Tomemos o exemplo das centrais a carvão. A maior parte daquelas que estarão em actividade em 2050 vão ser construídas nos próximos anos. Se devem beneficiar de tecnologias limpas, ou ser substituídas por centrais nucleares, ou – porque não – por eólicas, é ao tomar agora a decisão que a operação será menos dispendiosa. Pois obter o mesmo resultado ao começar com vinte anos de atraso sai muito mais oneroso: entretanto, enormes recursos terão sido gastos para construir equipamentos poluentes que será preciso eliminar.
Mas o custo não é, sem dúvidas, o principal obstáculo para a execução de medidas concretas. Mesmo se é difícil de avaliar, não há dúvidas que a humanidade tem os meios de as pagar. O problema reside sobretudo no contexto internacional de viva concorrência que opõe não somente as companhias, mas também os Estados. Contexto que encoraja o que se chama, em teoria dos jogos, a «estratégia do passageiro clandestino». Esta consiste em participar o menos possível no esforço global, já que os benefícios dele serão de qualquer forma partilhados por todos os jogadores. Uma tentação à qual somente um elevado sentido das responsabilidades podem permitir resistir. Sob o risco de que o barco Terra acabe por virar sob o peso dos passageiros clandestinos…


TEORIA DAS CUNHAS: 7 SOLUÇÕES A ESCOLHER ENTRE 15!

Socolow e Pacala recencearam 15 medidas em que cada uma, se aplicada, permite reduzir em 1 gigatonelada (1 «cunha») as emissões de carbono esperadas em 2055. No final, seria suficiente que 7 dessas 15 medidas fossem colocadas em prática para trazer as emissões de carbono ao nível de 2005. Enquanto ganhar mais de 7 cunhas permitiria diminui-las. Desde 2005, deve ser no entanto feito um esforço para diminuir as emissões.

Image hosting by PhotobucketOs veículos
Em 2050, deverão rolar no planeta 2 biliões de veículos, consumindo em média 8 litros aos 100 km. Substituí-los por veículos que consumam metade permitirá ganhar uma cunha. O que é possível trabalhando no seu tamanho, potência e tecnologia.
Trajectos
Actualmente, um veículo médio percorre cerca de 16 000 km/ano. Dividir pela metade essa distância ganha uma cunha. Como? Desenvolvendo os transportes comuns, o teletrabalho, as práticas «virtuosas» (partilha de carro, bicicleta, redução da distância casa/trabalho, etc.)
Habitat
A ideia é reduzir em 1/4, até 2050, as emissões de carbono das casas. Pois em termos de concepção e isolamento, existem já tecnologias para reduzir a energia consumida em climatização, aquecimento, iluminação…
Centrais a carvão
Em 2055, a eficácia das centrais a carvão deverá atingir 40% (32% hoje). Trata-se de aumentar esse número para 60%, melhorando a sua concepção e materiais.
Centrais a gás
O objectivo é substituir, em 1 400 GW, as centrais a carvão por outras a gás, que emitem metade do carbono. Isto significa quadriplicar o numero de centrais a gás actuais.
Carbono (*)
Trata-se aqui de capturar e enterrar em camadas geológicas estanques, as emissões das centrais a carvão, à razão de 800 GW por ano, ou das de gás (1 600 GW). Chama-se a esse princípio CCS (Carbon Capture and Stockage, ou captura e armazenamento de carbono). Em 1999, as centrais a carvão produziram 1 060 GW no global.
Hidrogénio (*)
Fabricar 250 Mt de hidrogénio com carvão (o dobro com gás), utilizando-o em seguida como combustível para veículos, com CCS, ganha uma cunha. Hoje, a produção de hidrogénio é de 40 Mt (1 megatonelada=1 milhão de toneladas). Isto supõe a existência de infraestruturas ad hoc.
Carburantes sintéticos (*)
Os «sinfuels» são carburantes sintéticos à base de carvão, cuja produção arrisca generalizar-se pelos países ricos em carbono (China, EUA). São duas vezes mais emissores de carbono que a gasolina. Se o fabrico desses carburantes se efectuar com CCS, à razão de 30 milhões de barris por ano, ganhamos uma cunha.
Nuclear
Trata-se de substituir a potência de 700 GW das centrais a carvão pelo nuclear, pouco emissor. Isto supõe triplicar o parque nuclear actual. De notar que abandonar o nuclear significa perder meia cunha.
Eólica
Construir 2 milhões de eólicas de 1 MW, seja 40 vezes o parque actual, faz ganhar uma cunha. É verdade que o conjunto ocuparia 20 milhões de hectares (mais de metade do território francês); mas o espaçamento das eólicas permite eventualmente outros usos do solo, como a agricultura.
Solar
Outra cunha ganha: instalar 700 vezes a capacidade actual de paineis solares, cerca de 2 milhões de hectares de paineis, para uma potência de 2 000 GW. O preço muito elevado é de momento um problema. Mas tecnologias solares a alta temperatura começam a abrir perspectivas.
Pilha de combustível
Os veículos dotados duma pilha a combustível devem ser recarregados em hidrogénio. Se este for fabricado por electrólise da água, a partir de eólicas, serão necessários 4 milhões de 1 MW (para dois biliões de veículos) para ganhar uma cunha. É 80 vezes a potência instalada actualmente.
Biocarburantes
Para o mesmo parque automóvel, multiplicar por cem a produção actual de etanol do Brasil e dos EUA ganha uma cunha. O que implica cultivar 250 milhões de hectares, seja 1/6 da superfície agrícola mundial.
Florestas
Parar a deflorestação, muito emissora de carbono, e duplicar ao mesmo tempo o ritmo actual de reflorestação, para atingir os 300 milhões de hectares de novas plantações em 2055, pode, segundo certas estimativas, fazer-nos receber mais uma cunha.
Agricultura
A prática da terra lavrada expõe o carbono do solo ao ar livre e provoca assim a sua libertação. Certas práticas agrícolas, como as sementeiras sem lavoura, permitem ao solo reconstituir o seu stock de carbono. Aplicar esta prática a todas as terras cultivadas (1/10 no imediato) permitiria ganhar uma cunha.


(*) Atenção, estas opções supõem a criação de locais de armazenamento subterrâneos. O local principal actual (Sleipner) está situado ao largo da Noruega. Armazena 1 milhão de toneladas de CO2 por ano. Este número deve ser multiplicado por 3 500 daqui a 2055.


(1) As emissões são expressas seja em toneladas de carbono, seja em toneladas de CO2. A primeira unidade deduz-se da segunda segundo uma relação de 3/11. Dito de outra forma, o carbono constitui perto de um quarto do peso da molécula de CO2.


In Science et vie nº 1061, Fevereiro de 2006
Artigo 3 de 3
Traduzido por DM

Publicado por terraviva às 05:56 PM | Comentários (64)

março 02, 2006

Fotos do Carnaval

cortejo carnavalesco
O cortejo folião ao passar pela Torre dos Clérigos. Em destaque a ala dos tambores, afinadíssimos, e o carro futurista Gazapata, que é como quem diz: gás à pata. Lá ao fundo ainda se vê um formoso cabeçudo que fiquei sem perceber se era o Cavaco, o Sócrates ou outro ilustre vampiro da nossa praça.

Boneco socrático
O boneco socrático fazendo um espalhafato pelas ruas.

Os dizeres críticos
Os dizeres críticos a formarem a coluna vertebral do cortejo.

Encenação em frente à câmara
As micro-teatralizações em frente à câmara municipal. Juntou muita gente, foram distribuídas hóstias anticonceptivas, houve perseguição às bruxas com lume vivo e a primeira de duas encenações com crítica política e social.

A caminhada pelas ruas do Porto
A caminhada carnavalesca pelas ruas do Porto. 60 pernas já cansadas voltam à base.

Também vos digo, se não fosse por nós, a tarde de 28 no porto tinha sido muito podre.

LF

Publicado por terraviva às 04:04 PM | Comentários (138)