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Por Yves Sciama

Calor, ciclones... No ano passado, o clima conheceu uma actividade sem precedentes! E esta constatação apoia o consenso científico sobre o aquecimento global devido ao homem.
Nunca visto pela memória humana. Ano após ano, os recordes meteorológicos continuam a cair. E 2005, desse ponto de vista, deve ficar nos anais. Até agora, o recorde do ano mais quente, do século e meio desde que começou a haver registos de temperaturas, pertencia a 1998. Segundo a NASA, 2005 destronou-o, com perto de 0,6ºC de aquecimento global em relação ao período 1950-1980, em que a temperatura média era de 14ºC (outras estimativas davam a 2005 alguns centésimos de grau acima do recorde). E, logo a seguir a 1998, encontram-se no pódio 2002, 2003, 2004… E não é tudo. Pois 2005 foi igualmente um ano sem precedentes conhecido pela actividade ciclónica no Atlântico Norte. A tal ponto que a Organização meteorológica mundial (OMM) teve de estender a sua nomenclatura, demasiado estreita de tão numerosas que foram as tempestades tropicais. De facto, os ciclones são baptizados por uma letra do alfabeto latino tirada em ordem à medida que se formam ao longo do ano: assim, Brett seguiu-se a Arlene, etc. Ora, pela primeira vez, a letra W foi ultrapassada e foi necessário recorrer ao alfabeto grego e mesmo percorre-lo até à letra épsilon! Um acontecimento único até agora.
Outros recordes, desta vez com consequências dolorosas: o furacão Wilma, formado em Outubro ao largo da Jamaica, foi o mais intenso de todos os dos anais meteorológicos, enquanto o Katrina, em Agosto, mostrou ser a catástrofe natural mais dispendiosa da história. Desde 1945, a energia dissipada pelos ciclones subiu em 80%, revelava a revista Nature no Outono passado! Além disso, as principais companhias seguradoras (Munich Re, Swiss Re…) fizeram já saber que o ano 2005 leva o título de ano mais custoso em termos de estragos causados por catástrofes naturais meteorológicas, com uma factura a ultrapassar os 200 biliões de dólares. Enfim, nos antípodas de Nova Orleães, o banco de gelo Ártico bateu em Setembro de 2005 o seu recorde de superfície mais fraca desde a existência de dados de satélite, 1978, com apenas 5,18 milhoes de km2.

Os cenários inquietantes dos climatólogos verificam-se
Pergunta: estes recordes são uma coincidência ou serão a assinatura do aquecimento global? Sendo o clima por definição constituído por médias, geralmente calculadas em trinta anos, nenhum recorde por si só permite responder a essa questão: para um estatístico, um ano isolado é sempre um caso isolado. De resto, os especialistas advertem que mesmo uma década de temperaturas inabitualmente frias não justificaria mudar o diagnóstico climático. E no entanto! Tudo se passa como se a atmosfera tivesse um estranho prazer em seguir quase à letra os cenários alarmantes dos climatólogos. Estes prevêem, lembremo-nos, que a temperatura média do planeta se deverá elevar até 2100, entre 1,4 e 5,8ºC.
Como elemento-chave, os modelizadores anunciam um aumento de acontecimentos extremos (inundações, secas, tempestades, etc.) e ciclones mais violentos. No que diz respeito às precipitações, mesmo se os modelos são menos homogéneos que para as temperaturas, parecem estar de acordo em que as tendências actuais serão amplificadas: as zonas áridas vão secar, nomeadamente a bacia mediterrânica, enquanto as regiões de muita pluviosidade vão receber ainda mais água, via chuvas mais intensas. E, como por acaso, a Índia bateu os recordes de pluviometria neste ano, enquanto uma seca devastadora se abateu sobre o corno de África. Enfim, o nível do mar irá elevar-se de 20 a 80 cm, devido à dilatação da água sob o efeito do calor, e numa menor medida sob o efeito do derretimento dos gelos do planeta. Certamente, trata-se somente de cenários, e só o futuro julgará da sua pertinência. Quer isto dizer que é preciso pô-los em questão? Que mesmo no seio da comunidade científica provocam debate? Que nada liga os recordes constatados em 2005 à tese dum aquecimento global provocado pelo homem?

A dúvida já não é permitida
Para saber mais, uma historiadora das ciências, da universidade de San Diego, Carolina, divertiu-se no ano paassado num pequeno exercício que teve honras de revista Science. Na base de dados ISI, que integra o essencial das revistas científicas com comité de releitura, Naomi Oreskes pesquisou pelas palavras-chave «aquecimento climático global». Resultado: 928 artigos, que passou a pente fino. O veredicto apareceu sem ambiguidades: 75% dos artigos aceitam explícita ou implicitamente a tese dum aquecimento climático provocado pelo homem, e 25% não dizem nada, sendo o seu assunto demasiado específico, como por exemplo os artigos de paleoclimatologia.
Mesmo se a amostra não é representativa da totalidade da literatura sobre o assunto, o elemento importante é que nenhum contesta a tese. Dito de outra forma, para os cientistas, não há agora duvidas de que as actividades humanas estão implicadas no desregulamento climático que percorre este pequeno planeta azul. A dizer a verdade, é a amplitude que, em alguns anos, se tornou edificante, apesar do que digam alguns «climatocépticos» americanos (como Michael Crichton). Pois nos anos 90, os relatórios que alertavam sobre o aquecimento planetário eram muito menos afirmativos sobre as suas causas. Uma prudência cientifica legítima que no entanto não impedia o Grupo intergovernamental sobre a evolução do clima (GIEC) de escrever já em 2001: «Há novas e fortes provas de que o essencial do aquecimento observado no decurso dos últimos cinquenta anos é imputável às actividades humanas.»
Ora, o GIEC, criado em 1988 pela Organização meteorológica mundial e o Programa das Nações Unidas para o ambiente, é justamente a expressão dum consenso científico, pois os seus relatórios, elaborados colectivamente pelo conjunto da comunidade climatológica, devem ser adoptados por unanimidade – e sempre o foram. Ainda há dúvidas? Mais recentemente, em Junho de 2005, as Academias de ciências de onze países tornaram público um comunicado comum. Junto com as de França, Japão, Alemanha, Reino Unido, figuram entre os signatários Academias de vários países com governos cépticos sobre os perigos do aquecimento, como os EUA e a Rússia, ou em todo o caso hostis à limitação das suas emissões: é o caso da Índia, China e Brasil.


Que probabilidade do pior?
Este comunicado, intitulado «Uma reacção global para a alteração climática», retoma por seu lado o conjunto das conclusões do GIEC, atestando que cinco anos de pesquisas suplementares nada mais fizeram que as confirmar. Resta que é necessário o entendimento sobre o termo de consenso climatológico. O último relatório do GIEC tem vários milhares de páginas. Contém considerações relevantes da demografia, da química atmosférica, da oceanografia, da fisiologia vegetal, da paleoclimatologia, etc. Todos os investigadores de todas as disciplinas pensam a mesma coisa? É claro que não. Na realidade, como indica Olivier Boucher, chefe do grupo Clima, química e ecosistemas do Hadley Centre britânico, que foi um dos autores do relatório de 2001 do GIEC, «há coisas de que estamos certos, coisas de que estamos menos certos, e coisas muito incertas. A maneira como comunicamos esses graus de certeza/incerteza não é fácil. Há por vezes parte da média e/ou dos cientistas a passar em silêncio as incertezas e a concentrar-se no pior cenário. É preciso não negar o pior, mas acrescentar que a sua probabilidae é fraca.» Concretamente, só algumas constatações são certas: o planeta aqueceu perceptivelmente de há um século. Esse aquecimento vai acentuar-se. É principalmente imputável às emissões de gases de efeito de estufa resultantes de actividades humanas. Para evitar os perigos resultados de uma instabilidade climatérica grave, e para limitar os custos de adaptação, é preciso agir agora.
Gerir a complexidade
Em troca, quando se abordam estimativas numéricas e detalhes dos processos, o consenso existe, mas torna-se relativo. É que, para o exprimir, é preciso introduzir as probabilidades, que o relatório do GIEC define em grande detalhe. E é aqui que as coisas se tornam complexas. Pois entre grau de confiança duma previsão e nível de compreensão dum fenómeno, os investigadores têm antes de tudo uma preocupação de exactidão. Uma preocupação que, in fine, explica a diferença de mais de 4ºC na previsão dada pelo GIEC: entre 1,4 e 5,8ºC de subida até 2100. E porque tem em conta um enorme número de fenómenos, desde a influência de gases «globais» como o dióxido de carbono ou o metano até às mudanças de radiação solar, a cobertura das nuvens, a ocupação dos solos, os traços de condensação dos aviões, etc. A incerteza sobre os efeitos dos gases de efeito de estufa globais aparece fraca, na ordem dos 10%. O que permite uma boa qualidade de previsão, pois constituem o essencial do aquecimento anunciado. Os outros processos são mais incertos (até, por vezes, 300%), mas o seu efeito no aquecimento é menor, e podem mesmo ser contraditórios entre si. Por exemplo, o ozono troposférico «aquece» (incerteza 43%) mais ou menos o mesmo que os aerossóis de sulfatos «arrefecem» (incerteza 200%). Estes processos mal conhecidos deveriam equilibrar-se… aproximadamente.
Resta que entre 1,4 e 5,8ºC a distância não é pequena: conforme nos colocamos num ou outro dos limites do intervalo, as consequências para o homem serão gestionáveis ou catastróficas. Pode esta incerteza ser reduzida substancialmente? «Não tenho a certeza que todos os cientistas dariam a mesma resposta, estima Hervé Le Treut, do Laboratório de meteorologia dinâmica, um dos principais modelizadores franceses. Mas o que é certo é que estamos longe de ter chegado ao fim do que sabemos fazer, a há ainda muitos dados já existentes ou a chegar para serem analisados. No entanto, é preciso admitir que estamos face a um sistema muito complexo, parcialmente caótico, onde nunca poderemos prever tudo.»
A influência que terá o aquecimento no número de catástrofes meteorológicas, por exemplo, revela-se particularmente difícil de avaliar. Em teoria, um clima mais quente deveria ser acompanhado por uma instabilidade maior e portanto dum risco mais elevado de eventos como canículas, inundações, tempestades, etc. O problema é que a maior parte destes fenómenos desenvolve-se em escalas relativamente pequenas e só se produzem de tempos a tempos. De rajada, os modelos actuais têm dificuldades em representá-los, nomeadamente porque os investigadores estão limitados pela potência de cálculo dos computadores de que dispõem.
Um simulador gigante para ajudar
No entanto, as coisas avançam rapidamente neste domínio. Os japoneses, em particular, montaram um computador gigante, chamado «Earth Simulator». «No seu lançamento, representava na prática um progresso de factor 1 000 em relação aos computadores presentes na maioria dos laboratórios, nota Hervé Le Treut. Ora, uma tal máquina permite quebrar uma parte da barreira de escalas e começar a representar alguns fenómenos extremos tais como tempestades, ciclones, etc. É um facto cientifico de monta dos últimos anos. Os japoneses estão no presente a rodar um modelo global – imperfeito, é certo – com uma resolução de 3,5 km! O que dá um luxo de detalhes inimaginável.» Se os modelos nunca serão uma bola de cristal, colam-se no entanto cada vez mais à realidade. E são mesmo eles que nos podem dizer o que nos espera… e o que é possível fazer para evitar o pior.
Para saber mais:
http://www.ipcc.ch/
http://www.wmo.ch/
http://data.giss.nasa.gov/gistemp/2005/
In Science et vie nº 1061, Fevereiro de 2006
Artigo 1 de 3
Traduzido por DM
Publicado por terraviva às fevereiro 11, 2006 01:55 PM
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Publicado por: Clifton às agosto 13, 2006 10:47 AM
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Publicado por: Jonas às agosto 23, 2006 02:24 PM
Olá. Gostei muito do site, e tem coisas que até são interessantes.
Mas pronto, há outras que parecem uma .|.
Publicado por: Joaquináá às maio 6, 2008 09:08 AM
Estive a pensar, nestes curtos segundos, e cheguei à conclusão que o site está uma merdinhaa!
Parece a (0) da minha tia. :O
.|.
Publicado por: Joaquináá às maio 6, 2008 09:10 AM