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Era uma vez num tempo desafortunado, uma coisa peluda chamada homem. Junto com ele havia uma coisa ainda mais peluda, chamada animal. O homem tinha um cérebro maior, o que o levou a pensar que era superior aos animais. Alguns homens pensaram que eram superiores aos outros homens. Estes tornaram-se líderes.
Os homens líderes diziam “Nós não temos necessidade de trabalhar, mataremos animais para comer”, e assim o fizeram. Os homens aumentaram, os animais diminuíram. A certa altura os líderes disseram “Não há animais suficientes para comer. Precisamos de produzir a nossa própria comida”. E assim os homens produziram comida.
Então, os únicos animais que os homens não destruíram foram os mais pequenos, como os coelhos e os ratos, e estes pequenos animais foram apanhados a comer as colheitas do homem. “Estes animais são uma ameaça. Têm de morrer”.
Na China mataram todos os pardais. Na Austrália mataram todos os coelhos. Por todo o lado os homens mataram toda a vida selvagem. Rapidamente já não havia nenhuma e todos os pássaros foram envenenados. O líder dos humanos disse “Finalmente! Estamos livres de pestes”.
O número de homens aumentou. O mundo ficou apinhado de homens. Até que tinham todos que dormir de pé. Um dia o homem líder viu uma nova criatura a comer as suas colheitas. O nome desta criatura era “gente esfomeada”.
“Esta criatura é uma ameaça!” disse o homem líder…
Spike Milligan
Publicado por terraviva às janeiro 26, 2006 04:18 PM
a utopia de hoje é a realidade de amanhã?
há no humano 'ghost in the machine'?
Publicado por: pseudónimo às janeiro 27, 2006 11:45 AM
a utopia concerteza :)
Publicado por: LF às janeiro 27, 2006 01:48 PM
Tanta testosterona nesta história... resta saber como é que os homens se multiplicaram para o mundo ficar apinhado de homens...
Publicado por: E-clair às janeiro 28, 2006 06:41 PM
É verdade. Normalmente teria adaptado o género, mas como até quase ao fim o homem é o vilão da história pensei que ficaria bem se representasse apenas o topo da escala hierárquica e deixasse a mulher de fora.
Publicado por: LF às janeiro 29, 2006 12:53 PM
Adaptado?! O autor não escreve mesmo "man"? Se escreve, tens de respeitar na tradução.
O topo de escala hierárquica da vilaneza?:)
Publicado por: E-clair às janeiro 29, 2006 05:11 PM
No original está man mas o autor refere-se a toda a humanidade como é costume fazer-se. E se não fosse um ponto de vista negativo da humanidade teria alterado a tradução sim, com o maior desplante possível :) Já o tenho feito e ponho sempre a indicação "adaptado". A ideia é que vale mais uma linguagem justa que uma tradução fiel. @ autor que me processe... eheh
Publicado por: LF às janeiro 29, 2006 07:10 PM
ah! a escala hierárquica a que me referia não é propriamente a da vilaneza embora efectivamente também o seja. Pensei no topo da escala do poder e do domínio, o que na prática torna o homem o maior vilão. O homem branco, heterossexual, católico (cá na terra), rico e com alto grau de instrução, se quiseres.
Não vale a pena falar sequer do que não é humano porque aí o ser humano faz-se indiscutivelmente, a bem ou a mal, a torto ou a direito, a medida de todas as coisas.
Publicado por: LF às janeiro 29, 2006 07:20 PM
Hmmm, a tradução é que tem de ser justa.... a linguagem nunca o é. E, claro que o autor se refere a toda a gente com o costumário "man"... Mas, nesse excerto, torna-se comicamente evidente que não é possível usar "man" para a humanidade:)
Esse homem que descreves tem muitos irmãos de várias cores, religiões e estrato económico... e também tem tido algumas irmãs, fiéis seguidoras da tradição de calcar o que se pode para singrar rapidamente...
Publicado por: E-clair às janeiro 29, 2006 09:42 PM
Estão 7 mulheres e 1 homem e nós dizemos "eles" para nos referirmos ao grupo. É isto que não faz sentido e que torna parcial, injusta e discriminatória a linguagem. E é tão simples acabar com isso...
O homem que descrevi é uma tipificação pelo que é fácil encontrar derivações, mas o âmago da questão continua o mesmo: se a cor da pele é outra que não branca continua a ser um homem a mandar; se a religião é outra que não a católica continua a ser um homem a deter o poder; se há 2 cores numa comunidade é a vontade do homem branco que predomina; etc.
Publicado por: LF às janeiro 30, 2006 04:38 PM