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outubro 26, 2005
Proposta / Apelo
A Todos os Grupos, Associações, Colectivos e Pessoas Anti-racistas
Saudando fraternalmente desde já todas as associações e pessoas que já estão activas (ou que o pretendem vir a estar), no movimento anti-racista e de solidariedade com @s imigrantes, a Terra Viva!/Terra vivente – Associação de Ecologia Social e o seu Projecto “FAZER CAMINHOS/REGRALL”, CONSIDERANDO:
1- Todo o cenário de exploração, sonegação de direitos, racismo e xenofobia que envolve o dia a dia das nossas irmãs e irmãos imigrantes, legais ou ilegais , oriundos de diferentes países e culturas, que procuram neste país e na Europa, uma possibilidade de sobrevivência frente aos enormíssimos desequilíbrios e desigualdades que atingem o Mundo actual;
2-A vocação universalista, anti-racista e solidária com todos os atingidos pelas diversas “exclusões”, por parte da nossa associação;
3-O envolvimento da nossa associação , na actualidade, num projecto de combate à exclusão social dos jovens e crianças filhos de imigrantes – mas também das suas famílias – através do programa institucional “Escolhas 2ª Geração “;
4- As limitações que qualquer associação ou instituição por si só , isolada , experimenta para poder ter uma acção moral e efectivamente eficaz na defesa dos mais elementares direitos humanos d@s noss@s irmã/os imigrantes, frente ao burocratismo, ao racismo, à xenofobia – subtis ou evidentes - e à exploração dominantes,
PROPõE:
1º- Que encetemos uma campanha de contra-informação - por exemplo , com a ideia-chavene “SOMOS TODOS ILEGAIS!...”-nesta região, junto da opinião pública, a propósito das verdadeiras origens dos desequilíbrios Norte-Sul, Oeste-Léste , e nomeadamente das verdadeiras razões para os tristes acontecimentos recentes numa das fronteiras desta “Europa-fortaleza” em Melilla, na fronteira Hispano-Marroquina;
2º- Que nos manifestemos publicamente , de várias formas, em solidariedade activa com as vítimas da bárbara repressão das autoridades policiais fronteiriças, nesta como em todas as fronteiras que separam os países e regiões mais ricas das mais pobres;
3º- Que os jovens e crianças filhos de imigrantes da região do Porto, nomeadamente os residentes nas Freguesias do Centro Histórico e de Campanhã, nos contactem, visitem e se insiram nas várias actividades do nosso Projecto “Fazer Caminhos/REGRALL”,do âmbito do Programa Escolhas Segunda Geração, criadas também para eles;
4º - Que todas as associações, colectivos , grupos informais, de imigrantes e/ou de pessoas que com eles se solidarizam , criem desde já, com o mais total respeito pela identidade de cada um destes agrupamentos e segundo os princípios de COMPLEMENTARIEDADE DAS DIFERENÇAS e da AUTONOMIA e INDEPENDÊNCIA DE DECISÕES , mas também segundo o princípio da SOLIDARIEDADE ACTIVA entre os vários grupos e pessoas, a REDE DE SOLIDARIEDADE IMIGRANTE E ANTI-RACISTA do GRANDE-PORTO;
5º - Que tal “REDE”, funcione de forma descentralizada e mediante encontros periódicos frequentes, activando todas as formas possíveis de solidariedade com os imigrantes e pessoas de outras culturas, de acordo com a vocação de cada entidade: da denúncia pública ao acompanhamento e encaminhamento de situações, da inserção de crianças e jovens em actividades de tempos livres , da festa interculturas à manifestação e ocupação de espaços públicos – como forma de alertar e encontrar eco solidário, também nos cidadã/os nacionais ameaçados também pelas várias assimetrias e exclusões (despedimentos, desemprego, degradação do nível de vida, etc.).
Com as nossas saudações, por uma Terra viva, livre, sem amos nem escravos (novos ou velhos) e sem racismos, “outrismos” e xenofobias!
Porto, 15 de Outubro de 2005
-Projecto “FAZER CAMINHOS/REGRALL “(do âmbito do programa “Escolhas 2ª Geração”)
-TERRA VIVA! TerraVivente . Associação de Ecologia Social
Publicado por terraviva às 08:22 PM | Comentários (2)
outubro 24, 2005
Bar Benefit
Quartas à noite o Terra Viva! vai abrir as portas com bebidas e petiscos eco-sociais num espaço em transformação. Temos um barzito amador e DJs de circunstância.
Está também programada para breve a exibição de filmes/documentários e outras actividades.
das 22 à 1, na Rua dos Caldeireiros, n.º 213 (à Cordoaria, junto da Torre dos Clérigos), telef: 223 324 001, terraviva@aeiou.pt
Aparece por cá!
LF
Publicado por terraviva às 05:21 PM | Comentários (0)
outubro 23, 2005
A raça como legitimação de desigualdade
«Como todos sabemos, no seu início a antropologia foi responsável pela introdução e sistematização do conceito de raça. Servia este para definir uma taxonomia [nota minha: chama-se taxonomia à classificação científica] dos grupos humanos, à qual se sobreporia a noção de etnia. Convém desde já dizer que os dois conceitos são primos. O busílis da questão estava no reconhecimento de uma noção unificada da Humanidade e, ao mesmo tempo, de diferenças culturais cuja tradução mútua era tida como difícil. Junto com outros determinismos extra-sociais (como a clima, a geografia etc.), a taxonomia dos corpos serviu como explicação em última instância para as diferenças sociais e culturais encontradas no mundo. O racialismo foi mesmo utilizado para explicar as diferenças no seio de um mesmo Estado-Nação, aplicando-se a ideia de inferioridade racial à classe operária, aos campesinatos, aos marginais e criminosos. A história é relativamente bem conhecida de todos. O seu ponto central é o seguinte: as classificações raciais serviram sempre para legitimar desigualdade de poder. E foi como expressão de um desejo de classificação que a noção de raça surgiu e não como produto lógico de um impossível pensamento científico puro.»
Excerto de "Crioulo e cidadão: Notas para um Humanismo Radical", do antropólogo Miguel Vale de Almeida
LF
Publicado por terraviva às 09:16 PM | Comentários (0)
Máquina da Raça Humana

"Há apenas uma raça, a humana. O conceito de raça não é genético, mas social. Não existe o gene da raça. A Máquina da Raça Humana leva-nos para lá das diferenças, para atingirmos o unicidade. Somos tod@s @ mesm@."
É assim que a artista Nancy Burson apresenta a sua máquina de transformar a cara de uma pessoa de uma "raça" numa outra. Sentas-te em frente a ela é a tua imagem é capturada. Depois é só escolher o novo aspecto.

LF
Publicado por terraviva às 01:58 PM | Comentários (15)
outubro 19, 2005
HOMEM DE COR
Quando nasci eu era preto.
Quando cresci fiquei preto.
Quando estou doente fico preto.
Quando apanho sol fico preto.
Quando estou com frio fico preto.
Quando tenho medo fico preto.
Quando morrer ficarei preto.
Mas tu “homem BRANCO”,
Quando nasces és cor-de-rosa,
Quando cresces ficas branco,
Quando apanhas sol ficas vermelho,
Quando sentes frio ficas roxo,
Quando sentes medo ficas verde,
Quando estás doente ficas amarelo,
Quando morres ficas cinzento,
E ainda tens a lata de me chamar:
"homem de cor!"
Autor anónimo
LF
Publicado por terraviva às 12:10 PM | Comentários (9)
outubro 16, 2005
Racismo Ambiental
Na sequência do artigo sobre racismo ambiental no Bioterra resolvi dar um contributo para o debate.
O racismo ambiental é uma forma de discriminação e de prejuízo direccionado em que se torna evidente o resultado catastrófico da hierarquização que os seres humanos estabeleceram entre si e em relação ao meio natural. A hierarquia resulta da percepção de superioridade dos mais poderosos politica, económica e socialmente em relação aos mais fracos, superioridade essa que os faz pensar que podem dispor do que julgam inferior a seu bel-prazer.
Assim sendo, o racismo ambiental pode-se definir como sendo a colocação intencional de lixeiras perigosas, aterros sanitários, incineradoras, indústrias poluidoras, etc., em comunidades habitadas por minorias étnicas ou pelas camadas mais desfavorecidas economicamente da população. Estas comunidades são particularmente vulneráveis porque são vistas como não reivindicativas, sem poder de negociação e fracas politicamente devido à sua enorme dependência dos empregos e ao medo pela própria sobrevivência económica.
Estas são as razões profundas que estão na génese do racismo ambiental:
. Racismo - antes de mais o próprio racismo enraizado nas mentalidades que gera um padrão duplo a respeito das práticas ambientais que são aceitáveis para cada comunidade.
. Poder transnacional e mobilidade das multinacionais - as grandes corporações tornaram-se mais poderosas que os estados nacionais e, com a conivência destes, exercem o seu poder sem dar contas a ninguém a não ser aos seus accionistas. A sua grande mobilidade permite-lhes exercer chantagem sobre as comunidades que vêm a mudança de localização da empresa como uma possibilidade que as leva a aceitar riscos ambientais e perca de direitos laborais.
. O lucro antes das pessoas - O impacto que as industrias de extracção e de processamento têm na saúde humana não importa quando se procura aumentar os lucros.
. Padrões ambientais menos exigentes no estrangeiro - os países em que há regras ambientais menos rígidas são os mais apetecíveis para as multinacionais. As populações são, por sua vez, menos reivindicativas e exigentes.
. Falta de poder - as minorias étnicas na Nigéria, as pequenas comunidades rurais dos EUA, os povos indígenas por todo o mundo, etc. têm algo em comum: não têm poder sobre o seu destino, seja ele político ou de outra natureza.
O artigo sobre os OGM em África aqui publicado recentemente, é um exemplo maior de depredação das multinacionais aos povos mais vulneráveis, fruto de racismo ambiental.
fontes: Environmental Racism: Old Wine in a New Bottle, de Fighting Environmental Racism: A Selected Annotated Bibliography, e do Environmental Justice Resource Center
LF
Publicado por terraviva às 10:04 PM | Comentários (23)
outubro 15, 2005
Receita de Sabão
Esta é a receita de sabão que se tem usado nas nossas oficinas de ambiente. Faz-se a reutilização do azeite, não se gasta em sabão com produtos de origem animal, faz-se umas coroas para a associação (esperemos), e cultiva-se o faz-tu-mesm@.
Ingredientes:1L de azeite usado.
1L de água.
165 gr. de soda cáustica.Como fazer
Põe-se a água num recipiente de plástico, barro ou vidro e dissolve-se na soda cáustica com muita precaução. Quando a água estiver morna, juntamos o azeite usado sem deixar de mexer sempre na mesma direcção (com uma colher de pau ou com uma batedeira).
Preparamos os moldes (em plástico forte ou madeira) e vertemos a mistura quando tiver uma consistência parecida com a da maionese (está pronto quando o fio que escorre da colher fica marcado na mistura).
Esperar de uma semana a quinze dias e está pronto a usar.
Quase toda traduzida do castelhano pelo Ruben Costeira, 12 anos.
LF
Publicado por terraviva às 01:06 PM | Comentários (290)
outubro 13, 2005
Organismos geneticamente modificados (OGM) na agricultura: paradas e estado dos lugares na África Oeste.

07 Setembro 2005
Comunicação dirigida às organizações de camponeses do Mali, ao encontro da «fibra africana», organizada pela coligação pela protecção do património genético do Mali e o Fórum por Outro Mali. Bamako, de 28 de Fevereiro a 5 de Março de 2005.
1. Definição de um organismo geneticamente modificado (OGM)
Nos seres vivos, cada carácter é governado por um ou vários elementos internos aos seus organismos chamados genes. Ainda há algumas décadas, o aperfeiçoamento e selecção das plantas apelava à sexualidade (hibridação) na maioria dos vegetais. Com o desenvolvimento das biotecnologias modernas, um novo procedimento biológico foi posto em acção; trata-se do génio genético. Os instrumentos de laboratório aqui desenvolvidos são como tesouras e cola biológicas que permitem cortar um gene que controla um carácter de interesse como a resistência aos insectos, e colá-lo ao organismo de uma espécie que queremos melhorar. É assim que se obtém um OGM, que contém um gene estranho, frequentemente pertencente a um organismo de outra espécie daquela que queremos melhorar. Estes OGM não poderiam existir naturalmente, sem manipulações biológicas (génio genético) efectuadas pelo homem em laboratório. Exemplo: o algodão Bt é um algodão no qual o génio genético foi utilizado para introduzir um ou alguns genes, provenientes duma bactéria do solo chamada Bacillus thuringiensis (Bt), que produz toxinas mortais para os predadores sensíveis que dela se alimentam.
Organismos geneticamente modificados (OGM) na agricultura: paradas e estado dos lugares na África Oeste.
07 Setembro 2005
Comunicação dirigida às organizações de camponeses do Mali, ao encontro da «fibra africana», organizada pela coligação pela protecção do património genético do Mali e o Fórum por Outro Mali. Bamako, de 28 de Fevereiro a 5 de Março de 2005.
1. Definição de um organismo geneticamente modificado (OGM)
Nos seres vivos, cada carácter é governado por um ou vários elementos internos aos seus organismos chamados genes. Ainda há algumas décadas, o aperfeiçoamento e selecção das plantas apelava à sexualidade (hibridação) na maioria dos vegetais. Com o desenvolvimento das biotecnologias modernas, um novo procedimento biológico foi posto em acção; trata-se do génio genético. Os instrumentos de laboratório aqui desenvolvidos são como tesouras e cola biológicas que permitem cortar um gene que controla um carácter de interesse como a resistência aos insectos, e colá-lo ao organismo de uma espécie que queremos melhorar. É assim que se obtém um OGM, que contém um gene estranho, frequentemente pertencente a um organismo de outra espécie daquela que queremos melhorar. Estes OGM não poderiam existir naturalmente, sem manipulações biológicas (génio genético) efectuadas pelo homem em laboratório. Exemplo: o algodão Bt é um algodão no qual o génio genético foi utilizado para introduzir um ou alguns genes, provenientes duma bactéria do solo chamada Bacillus thuringiensis (Bt), que produz toxinas mortais para os predadores sensíveis que dela se alimentam.
2. As paradas ligadas aos OGM
São importantes e de diferentes ordens.
2.1. As paradas económicas
A produção dos OGM exige importantes meios financeiros e técnicos que não existem facilmente na maioria das estruturas públicas de pesquisa científica. Desse facto, a sua produção encontra-se na maioria dos casos em mãos de multinacionais. Não sendo estas filantrópicas, os investimentos efectuados na produção de sementes transgénicas serão recuperados pela actividade comercial. É um dos aspectos do Acordo sobre os direitos de propriedade intelectual ligados ao comércio (ADPIC), com o artigo 27-3(b) das directivas da OMC. As sementes transgénicas são todas patenteadas, e são mais caras que as sementes tradicionais, devido aos custos tecnológicos.
Assim, os interesses económicos dos seleccionadores e multinacionais são protegidos, em detrimentos dos dos agricultores e comunidades locais. Estes interesses económicos dos produtores de OGM são as principais razões da ofensiva actual das multinacionais e da cooperação bilateral como a da USAID e certas cooperações de países europeus, em toda a África, organizações regionais ou sub-regionais (CEDEAO, UEMOA), e cada um dos países africanos. Esta ofensiva visa forçá-los a aceitar sem precauções, e sem tardar, a introdução dos OGM. Tudo isto com o único objectivo do lucro.
Para além disso, o gene de interesse introduzido no organismo pode não ser tão eficaz quanto pretendem as multinacionais. É o caso do algodão Bt, que não controla todos os insectos que proliferam no algodão na África Oeste. Desse facto, se bem que pagando bem caras as sementes OGM, o ganho pretendido pela redução de utilização de pesticidas não é verificado.
2.2. Paradas culturais e éticas
Em África como por todo o mundo, a diversidade cultural está ligada à diversidade culinária e genética. Quais seriam as consequências das modificações da diversidade genética na diversidade cultural? Aliás, as interdições alimentares ou os totens fazem parte da realidade africana na maioria das aldeias e regiões. O que acontece com os OGM?
Importa lembrar que as sementes que servem de ponto de partida à criação de variedades melhoradas ou transgénicas provêm de trabalhos de selecção e conservação dos agricultores e comunidades locais durante gerações, séculos ou milénios. Ora, os direitos dos agricultores e das comunidades locais não são reconhecidos ao mesmo titulo que os direitos de propriedade intelectual dos seleccionadores e produtores de OGM. É necessário precisar que a patenteação do ser vivo é contrária à ética africana, que sempre consagrou a propriedade colectiva das sementes e a troca destas entre camponeses, parentes ou amigos.
Todas estas práticas de trocas de sementes estão interditadas pelos OGM. Com eles, aceita-se implicitamente a propriedade do ser vivo, consagram-se os direitos de propriedade intelectual sobre plantas e animais, e ignoram-se os direitos dos agricultores e comunidades locais. Ora, o grupo África junto da Organização Mundial do Comércio em Genebra rejeitou desde a Cimeira de Seattle, em 1999, as patentes sobre seres vivos, e desde Julho de 2001, os chefes de estado da União Africana adoptaram a lei modelo da OUA sobre a «Protecção dos direitos das comunidades locais, dos agricultores e comerciantes, e regras de acesso aos recursos biológicos». Mas, até agora, raros são os países que legislaram a protecção dos agricultores e das comunidades locais dos seus territórios nacionais.
Enfim, os OGM colocam também outros problemas éticos, na medida em que a barreira natural entre as espécies não existe mais. Com efeito, os genes inseridos na planta alterada são frequentemente provenientes duma espécie estranha. Pode-se mesmo inserir um gene duma espécie animal numa espécie vegetal e vice-versa. Conhecendo a importância das espécies animais e vegetais na vida quotidiana dos africanos, nomeadamente na alimentação, artesanato, saúde e, sobretudo, na espiritualidade, com interdições alimentares, totens, …, há lugar para dúvidas a propósito dos OGM em África. De facto, a contaminação das plantas e dos animais pelos OGM constitui um ataque ao que a África tem de fundamental e sagrado, o seu património genético (plantas e animais africanos).
2.3. Paradas ecológicas ou ambientais
Não podendo os campos de plantas transgénicas ser isolados dos campos convencionais, as trocas ou fluxos de genes conduzirão inevitavelmente a contaminações ou poluições genéticas, como acontece já no México com o milho, e em Taiwan com a papaia. Desde já, a introdução dos OGM expõe os recursos genéticos africanos à contaminação por genes estranhos às espécies. No estado actual das coisas, as consequências desta contaminação são imprevisíveis.
2.4. Paradas politicas
Desde as independências, os países africanos tiveram sempre dificuldades em financiar as suas próprias pesquisas agrícolas, e a aceitação dos OGM traz consigo necessariamente a dependência dos países africanos em relação às multinacionais e laboratórios internacionais para as sementes e alimentação. Com efeito, a análise da situação da pesquisa agrícola em cada país mostra que o financiamento é o principal constrangimento das suas actividades de selecção e melhoramento das plantas pelos métodos convencionais ou tradicionais desde há várias décadas. Com os OGM, a dependência face ao exterior torna-se inevitável para a alimentação e agricultura. Nesse caso, como falar de segurança ou soberania alimentar se estamos dependentes do exterior para a nossa alimentação ou sementes?
Para mais, as paradas económicas, ambientais ou ecológicas, culturais e éticas já evocadas reforçam a importância das paradas políticas dos OGM. Assim, a participação de todos os actores nacionais afectados pelo sujeito em reflexão, deve preceder toda a decisão politica relativa aos OGM em cada país africano.
3. Ponto da situação
Desde 1995, data da colocação em mercado dos primeiros OGM, quatro plantas fazem parte das principais culturas comercializadas à escala mundial. Trata-se do milho, algodão, soja e colza. Outras plantas transgénicas existem em escalas diversas, como o tomate, arroz, papaia, batata, morango… Há trabalhos actualmente em curso em institutos internacionais de pesquisa agronómica baseados em África relativos a vários outros vegetais.
Os principais OGM são sobretudo produzidos por cinco países: EUA, Canada, Argentina, Brasil e China. Em África, os países produtores são a África do Sul, Quénia e Egipto. A produção de OGM necessita muitos meios financeiros e técnicos, sendo assim reservado às multinacionais, com as firmas Monsanto (EUA), Sygenta (Suiça), Dupont (EUA), KWS AG (Alemanha), Limagrain (França).
A posição dos governos e dos consumidores face aos OGM varia de país para país nos EUA, estes organismos são tão bem aceites que o governo federal decidiu não indicar a sua presença em rótulos de sementes ou produtos. Pelo contrário, a Europa, a etiquetagem é obrigatória para todo o produto que contenha OGM. Neste ultimo caso, a desconfiança dos consumidores é reforçada pelos escândalos das vacas loucas, gripes das aves e frangos com dioxinas. Nos últimos inquéritos publicados em França ressalta que 70 a 75% dos consumidores europeus não querem consumir OGM. Deste facto, para encontrar escoamento a produtos não desejados na Europa, a África arrisca-se a ser o seu terreno de predilecção, sob o pretexto de que este continente sofre de fome. Ora, é bem conhecido que a África produz alimentação suficiente para alimentar todos os seus filhos, e que o problema crucial é o transporte dos produtos alimentares entre as regiões dum mesmo país, ou entre países de diferentes regiões, como é igualmente o caso na Ásia e na América Latina. Além disso, a África dispõe ainda de recursos genéticos alimentares ainda não explorados pela pesquisa científica nacional, que tem dificuldades em financiar as suas actividades na maioria dos casos.
Importa lembrar que com a Convenção sobre a diversidade biológica assinada em 1992, cada país é soberano em recursos biológicos. No quadro da efectivação dessa convenção, os países africanos participaram nas negociações internacionais relativas aos organismos vivos modificados (OVM, parte de OGM) que conduziram ao Protocolo de Cartagena sobre a biosegurança, sob o impulso do representante do governo etíope, Dr. Tewolde. Ao mesmo tempo, com a experiência limitada de cada país africano em matéria de OGM, uma lei modelo da OUA sobre a segurança em biotecnologia foi elaborada por especialistas africanos, para permitir a cada país tomar as disposições legislativas no território nacional, aceitar ou recusar esses produtos.
No interior de cada espaço nacional, as realidades são diversas, em particular nos países da África de Oeste. No Benin, em Março de 2002, uma moratória de cinco anos foi decretada pelo governo, em colaboração com a sociedade civil; esta moratória interdita a importação, circulação e comercialização dos OGM e derivados no país. Infelizmente, até hoje, nenhum decreto de aplicação desta moratória foi efectuado, devido, entre outros, à pressão das multinacionais sobre as autoridades politicas do país. As ofensivas das multinacionais foram tão eficazes que no Burkina Faso que desde Julho de 2003, os ensaios com o algodão Bt são efectuados no terreno, em condições de protecção duvidosas. No Senegal, as informações não oficiais dão conta igualmente de ensaios no terreno desde há vários anos, e da introdução de milho geneticamente modificado na alimentação. No Mali, as pressões sobre as autoridades politicas das multinacionais e da USAID são muito fortes. Ensaios clandestinos estarão mesmo em curso. A Costa do Marfim e a Nigéria parecem estar favoráveis aos OGM, enquanto nenhuma informação circula sobre a introdução dos OGM na Guiné, Guiné-bissau e Togo. Entretanto, em cada um destes países da África de Oeste a sociedade civil tenta, à sua maneira, trabalhar na informação pública e organização da resistência aos OGM.
A propósito dos OGM na alimentação, é forçoso reconhecer que todos os países da sub-região que recebem milho de ajuda alimentar dos EUA, via Programa Alimentar Mundial (PAM), USAID ou Cathwell (Catholic Relief Service ou Caritas) consomem OGM. Com efeito, os EUA são os primeiros produtores e consumidores do planeta. Não indicam a presença de OGM nos rótulos e são os primeiros fornecedores de ajudas alimentares do PAM desde há décadas
Desde 2002, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUE), com o apoio do Fundo para o Ambiente Mundial (FEM), iniciou em todos os países membros da UEMOA, como nos outros países francófonos africanos, um “Projecto de desenvolvimento das estruturas nacionais de biosegurança”, com o apoio de certas industrias e da ONG Third World Network (TWN). Este projecto deveria permitir a sensibilização pública, a efectivação de um quadro nacional de biosegurança, com um enquadramento regulamentar e um comité nacional de biosegurança funcional. Todos os países da UEMOA fizeram parte dos ateliers sub-regionais organizados no esforço deste projecto sobre a “avaliação e gestão de riscos, assim como a sensibilização e participação públicas” em Dakar (Senegal) em Abril de 2003, e sobre o “desenvolvimento dum quadro de regulamentação e de sistemas administrativos para estruturas nacionais de biosegurança” em Ouagandugu (Burkina Faso) em Abril de 2004.
4. Conclusão
Com os OGM, cada cidadão, seja produtor ou simples consumidor, é colocado perante as suas responsabilidades. O mesmo acontece em cada país. Em nome da dignidade, com os riscos ligados a estes organismos, devemos resistir a nível individual, a nível nacional, a nível regional, pois os OGM não conhecem fronteiras geográficas. Este movimento de resistência dos camponeses e dos consumidores africanos deverão ligar-se a movimentos similares em curso noutras partes do mundo, pois se trata de uma questão planetária. Desde já, os países africanos deveriam tirar lições da derrota na cultura do algodão Bt na Índia.
É para reconstruir juntos esta resistência que lançámos a «Coligação para a protecção do património genético africano», em Janeiro de 2004, em Grand-Bassam (Costa do Marfim), na iniciativa de INADES-Formation. Juntos, devemos ser dignos, criativos e solidários para resistir aos OGM nos nossos interesses, nos das organizações camponesas, das comunidades locais, dos consumidores e das gerações futuras em África.
DM
Mais informações:
http://www.grain.org/front/
http://www.legrandsoir.info/article.php3?id_article=2510
Publicado por terraviva às 04:20 PM | Comentários (147)
outubro 11, 2005
Festa do Arco-Íris


Oficina de capoeira com o grupo Ábada

O pessoal do Terra Viva! a preparar o Slide

Pinturas faciais
Publicado por terraviva às 09:03 PM | Comentários (125)
Picnic Vegetariano de Outono
DOMINGO, 16 de Outubro, a partir das 12.00 até ao anoitecer, no PARQUE DA PASTELEIRA, Porto

*Parque da** Pasteleira*, relativamente próximo do Clube Fluvial Portuense, da Pousada da Juventude, e da entrada do Horto de Serralves. A entrada principal situa-se na Rua Diogo Botelho e a localização exacta do picnic será junto ao café (que não se encontra ainda em funcionamento) e ao lago. A melhor forma de deslocação por BUS são os autocarros 36, 39, 200 e 207.
iniciativa da AVP (Associação Vegetariana Portuguesa), GAIA (Grupo de Acção e Intervenção Ambiental), INFONATURE.ORG e do TERRA VIVA! - Associação de Ecologia Social
LF
Publicado por terraviva às 08:54 PM | Comentários (25)
outubro 10, 2005
Posição da Associação Dietética Americana e dos Dietistas do Canadá sobre o vegetarianismo
A posição da Associação Dietética Americana (ADA- American Dietetic Association) e dos Dietistas do Canadá (Dietitians of Canada) é que as dietas vegetarianas correctamente planeadas são saudáveis, nutricionalmente equilibradas e trazem benefícios para a saúde na prevenção e tratamento de algumas doenças. Aproximadamente 2,5% dos adultos nos Estados Unidos e 4% dos adultos no Canadá seguem dietas vegetarianas. Uma dieta vegetariana é definida por não incluir carne, peixe ou aves.
[...]
Esta tomada de posição revê a corrente informação científica relacionada com nutrientes chave para os vegetarianos, incluindo proteína, ferro, zinco, cálcio, vitamina B-12, vitamina A, ácidos gordos n-3, e iodo. Uma dieta vegetariana, incluindo a vegana, pode satisfazer as correntes recomendações para todos estes nutrientes. Em alguns casos, o recurso a alimentos fortificados podem ser úteis na satisfação das recomendações para nutrientes individuais. As dietas veganas bem planeadas, assim como outros tipos de dietas vegetarianas são adequadas para todas as etapas do ciclo da vida, mesmo durante a gravidez, lactação, infância e adolescência.
As dietas vegetarianas oferecem um grande número de benefícios nutricionais, incluindo um nível inferior de gordura saturada, colesterol, e de proteína animal, assim como um nível mais elevado de hidratos de carbono, fibra, magnésio, potássio, ácido fólico, e antioxidantes tais como vitaminas C e E e fitoquímicos. Os vegetarianos têm sido apresentados como tendo um nível mais baixo de massa corporal do que os não vegetarianos, assim como taxas mais baixas de morte de doenças do coração; os vegetarianos também revelam menores níveis de colesterol no sangue; menor pressão arterial; e taxas inferiores de hipertensão, de diabetes Tipo2, e de cancro da próstata e do cólon.
[...]
Os profissionais da nutrição têm a responsabilidade de apoiar e encorajar aqueles que expressem algum interesse em optar por uma dieta vegetariana. Estes podem desempenhar um papel chave na educação de pacientes vegetarianos acerca das fontes alimentares de nutrientes específicos, da compra e preparação da comida e de qualquer modificação alimentar que seja necessária para satisfazer necessidades individuais. A planificação alimentar para os vegetarianos pode ser simplificada através do uso de um guia que especifique os grupos alimentares e a quantidade de doses para cada um.
Tradução do sumário de apresentação da Posição da Associação Dietética Americana e dos Dietistas do Canadá
Publicado em Journal of American Dietetic Association, 2003
Tradução: Maria Silva
Publicado por terraviva às 09:07 PM | Comentários (4)
outubro 06, 2005
A concentração global da indústria das sementes
O grupo ETC, que se dedica à divulgação de informação e análises socioeconómicas, tendências tecnológicas e alternativas ecológicas e socialmente sustentáveis, fez uma análise crítica à concentração global do negócio das sementes num punhado de empresas gigantes.
"Hoje em dia as 10 maiores companhias controlam metade das vendas mundiais de sementes. Com um mercado mundial de aproximadamente 21 mil milhões de dólares por ano, a indústria comercial de sementes é relativamente pequena comparada com o mercado global de pesticidas (35.400 milhões) e é claramente insignificante quando comparada às vendas farmacêuticas (466 mil milhões). Contudo, o controlo corporativo e a posse das patentes das sementes – o primeiro elo da cadeia alimentar – tem de longe mais implicações na segurança alimentar global."
"Com o controle das sementes e da pesquisa agrária em poucas mãos, o fornecimento mundial de comida está cada vez mais vulnerável aos caprichos dos que controlam o mercado. As corporações tomam decisões para apoiar a linha de fundo e aumentar o lucro dos accionistas - não para assegurar a segurança alimentar. Consequentemente, o oligopólio da indústria das sementes também significa menos oportunidades para os agricultores."
As dez maiores empresas de sementes do mundo + 1
| Empresa | vendas em 2004 (em milhões de dólares) |
|---|---|
| 1. Monsanto (EUA) + Seminis (comprada pela Monsanto em 3/05) | 2.277 + 526 pró-forma = 2.803 |
| 2. Dupont/Pioneer (EUA) | 2.600 |
| 3. Syngenta (Suiça) | 1.239 |
| 4. Groupe Limagrain (França) | 1.044 |
| 5. KWS AG (Alemanha) | 622 |
| 6. Land O’ Lakes (EUA) | 538 |
| 7. Sakata (Japão) | 416 |
| 8. Bayer Crop Science (Alemanha) | 387 |
| 9. Taikii (Japão) | 366 |
| 10. DLF-Trifolium (Dinamarca) | 320 |
| 11. Delta & Pine Land (EUA) | 315 |
Maria Silva e LF
Publicado por terraviva às 11:49 AM | Comentários (1)
outubro 04, 2005
Festa do Arco-íris

Sábado, 8 de Outubro
Traz a tua tribo às actividades interculturais!
Actividades para crianças, jovens, mães e pais de todas as culturas.
__________________________________________________________
Programa
Tarde – Escola EB23 de Miragaia e Horto das Virtudes (Porto)
15.00h (até ao fim da tarde) – Bancas das Associações - materiais, livros, artesanato, petiscos;
15.30-16.30h – Workshop de Capoeira com o grupo "Ábada";
16.30-17.15h – Pinturas faciais, expressão dramática, rappel, slide e arco e flechas;
17.15-18.00h – Pintura de pedras, puzzle dos continentes e retratos inter-étnicos, grafitti e hip-hop crioulo;
18.00-19.00h – Workshop Batucada com o grupo "Batucada radical";
Noite – Sede Terra Viva!
(R. dos Caldeireiros, 213 – à Cordoaria, Porto)
21.30-23.00h – Documentário "Era uma vez um arrastão" com debate orientado por Luciana Mendonça (SOS RACISMO);
23h – Bar e música ambiente.
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Iniciativa de:
. Projecto Fazer Caminhos/REGRALL (do âmbito do Programa Escolhas 2.ª Geração) / Terra Viva! - Associação de Ecologia Social;
. SOS RACISMO, Núcleo do Porto;
. AACILUS, Associação de Acolhimento aos Imigrantes Lusófonos.
Apoios:
. Escola EB23 de Miragaia;
. Batucada Radical;
. Capoeira - Grupo Abadá;
. Hip-hop Criôlo.
Publicado por terraviva às 10:49 PM | Comentários (10)