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«Como todos sabemos, no seu início a antropologia foi responsável pela introdução e sistematização do conceito de raça. Servia este para definir uma taxonomia [nota minha: chama-se taxonomia à classificação científica] dos grupos humanos, à qual se sobreporia a noção de etnia. Convém desde já dizer que os dois conceitos são primos. O busílis da questão estava no reconhecimento de uma noção unificada da Humanidade e, ao mesmo tempo, de diferenças culturais cuja tradução mútua era tida como difícil. Junto com outros determinismos extra-sociais (como a clima, a geografia etc.), a taxonomia dos corpos serviu como explicação em última instância para as diferenças sociais e culturais encontradas no mundo. O racialismo foi mesmo utilizado para explicar as diferenças no seio de um mesmo Estado-Nação, aplicando-se a ideia de inferioridade racial à classe operária, aos campesinatos, aos marginais e criminosos. A história é relativamente bem conhecida de todos. O seu ponto central é o seguinte: as classificações raciais serviram sempre para legitimar desigualdade de poder. E foi como expressão de um desejo de classificação que a noção de raça surgiu e não como produto lógico de um impossível pensamento científico puro.»
Excerto de "Crioulo e cidadão: Notas para um Humanismo Radical", do antropólogo Miguel Vale de Almeida
LF
Publicado por terraviva às outubro 23, 2005 09:16 PM