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A guerra é a expressão máxima de uma lógica militarista que pretende controlar permanentemente as nossas vidas, baseando-se no poder da violência, na força da preponderância masculina. “Olho por olho, dente por dente”, a maior vítima das guerras é a população civil, isto é, as pessoas idosas, as crianças, as mulheres.
A situação das mulheres nas guerras é específica em função do lugar que ocupam nos sistemas de género. E as agressões de que são objecto nos conflitos bélicos não são casuais, ou seja, produto único da situação de guerra, mas sim fruto da consideração generalizada de que as mulheres ocupam uma posição subordinada na sociedade.
Deste modo, a violência exercida contra as mulheres durante as guerras pode ver-se como uma exacerbação do que para muitas mulheres é o seu quotidiano durante tempos de “paz”. Os corpos femininos convertem-se em autênticos campos de batalha durante os conflitos bélicos entre povos.
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Mas falar de militarismo não se limita a falar-se de guerras, embora estas sejam a sua expressão máxima. O militarismo é algo muito mais amplo e complexo: é a lógica característica de sistemas sociais baseados na desigualdade, na hierarquia, na obediência, na disciplina, na exaltação da força, na submissão... a violência, ao fim e ao cabo, é o valor que rege as relações interpessoais e institucionais. Trata-se de uma lógica que estabelece relações de dominação entre povos, entre classes... mas também e sobretudo, entre géneros.
Assim, o antimilitarismo projecta-se não unicamente no movimento contrário às guerras, mas vai mais longe ao formular-se como forma de resistência à violência entendida de maneira estrutural, como valor sobre o qual assenta a nossa sociedade. E isto implica de forma muito clara a violência quotidiana -física e simbólica - que supõe o sistema patriarcal para as mulheres.
Patriarcado e militarismo são duas faces da mesma moeda, conceitos que se compartilham: (primazia da virilidade, lógica da violência). Com isto não se pretende afirmar que os homens sejam “por natureza” violentos e as mulheres pacíficas. É o sistema patriarcal que ao defini-los a “eles” enquanto homens, os faz duros, agressivos, não sentimentais... E a “elas”, enquanto mulheres deste sistema, submissas, afectivas, cuidadoras dos outros...
Além disso, impõe uma hierarquia: o racional sobre o emotivo, a competitividade sobre a solidariedade, a agressão sobre a afectividade, etc. Assim, a definição dos géneros dentro do sistema patriarcal impõe, por um lado a subordinação da mulher, por outro lado a lógica militarista como base das relações sociais.
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A “paz” procurada pelo antimilitarismo persegue algo mais complexo que um mundo sem guerras. Pretende combater as raízes do militarismo, que estão tanto nas estruturas económicas, como no âmbito ideológico e cultural. É uma paz que inclui, de forma imprescindível a libertação da mulher. Como o feminismo luta por sociedades não violentas, no sentido amplo da palavra.
Excerto de um texto traduzido de “Mujeres preocupando”, Revista de Contra-informação feminista, nº3.
Maria Silva
Publicado por terraviva às setembro 28, 2005 12:24 AM
O Corpo da mulher muitas vezes nem chega a ser campo de batalha, é mesmo despojo de guerra a ser tomado e depois atirado fora quando já é "osso"...
também não creio que os homens sejam naturalmente agressivos e as mulheres pacíficas, até porque na vida do dia-a-dia ("não-militarista") conheço vários exemplos do contrário... Mas, se a culpa é dos "sistemas de patriarcado", eu pergunto quem os erigiu como sistema e quem os sustém? Serão eles tão formatadores das pessoas que o homem "tem" de simpatizar com o bélico e a mulher com o lar?
P.S. Que ilustração bélica! :(
Publicado por: E-clair às setembro 28, 2005 10:17 AM
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Publicado por: Ambientalistas da Amadora às setembro 28, 2005 12:40 PM
E-clair,existem papéis de género que normalizam os comportamentos esperados por parte de homens e de mulheres e que obrigam os sujeitos a actuar de acordo com esses papéis pela força da pressão social que eles mesmo exercem.
Desde muito cedo (desde a nascença, mesmo) as crianças são levadas a defenir-se dentro de um género e a actuar segundo ele. Brinquedos bélicos para os meninos, brinquedos domésticos para as meninas. Não há nenhuma diferença biológica que dite este tipo de comportamento. A imposição está na construção social do que é o feminino e do que é o masculino.
Numa sociedade patriarcal como a em que vivemos, ainda hoje e apesar das evoluções sociais neste âmbito, da mulher é esperado que tenha uma atitude de "objecto de adorno",submissa, passiva, sensível, maternal, dedicada à família e às tarefas do lar....Do homem exige-se uma atitude guerreira, activa, dominadora, "racional" em oposição às emoções....
(A imagem que escolhi não é de forma alguma bélica, apresenta-se antes como oposição ao belicismo. Como ilustração antimilitarista de acordo com as ideias do artigo publicado.)
Publicado por: Maria Silva às setembro 28, 2005 06:41 PM
Eu sei da construção social dos papeis e da sua força... e não há, claro, nada que biológica e univocamente determine que os meninos brincarão (com gosto) aos cóbois e as meninas às casas.
A minha pergunta era outra e não acho que tenha explicação/resposta fácil...
Quanto à ilustração e sobretudo a mulher, as cores, a pose, o tamanho, os músculos, a desproporção entre os "soldadinhos de chumbo" indiferenciados e a mulher gigante, etc, são para mim bastante agressivas e toda a imagem cheira a belicismo...
Publicado por: E-clair às setembro 29, 2005 10:50 AM
Pelos vistos, as últimas descobertas têm identificado diferenças intelectuais congénitas entre sexos, o que faz com que se tenha que repensar a ideia que os papeis de género são meramente construções sociais. Não duvido que o sejam em grande parte mas não será de desprezar a tendência não ensinada dos bébés meninos para se sentirem mais atraídos para os carros do que as bébés meninas. Acho que ainda muito há para descobrir a começar pelo que é que realmente atrai os meninos nos carros. Não será o tempo que demora a ir dos 0 aos 100 concerteza :)
Não se pode é deixar que estas descobertas, caso se confirmem, sejam aproveitadas para fins desonestos. À custa destas teorias o reitor da universidade de Harvard quis passar a ideia que haveria mais homens a trabalhar em ciência do que mulheres porque os homens são mais dotados. Isto é uma polémica recente e deu muito que falar. Vou ver se encontro o artigo onde li isso.
Há outras diferenças que já são mais genericamente aceites como a capacidade de percepção espacial ser melhor nos homens e a linguagem melhor na mulher.
Publicado por: LF às setembro 29, 2005 12:23 PM
Concordo, LF, mas as diferenças que "existem", seja a nível genético/biológico ou vistas a "olho nu" (mas, existe algo mais "contaminado" do que a visão? :)) não poderão ser uma espécie de cristalização que servirá precisamente esses fins desonestos de manter, por exemplo, a mulher "no seu lugar"? E, já agora, haverá ser mais bem equipado do que uma mulher para compreender o racismo? :)
Publicado por: E-clair às setembro 30, 2005 11:13 AM
Acho que se passa o mesmo em muitas temáticas. Começa-se com uma série de conceitos pré-concebidos, os famosos preconceitos :) , e depois tenta-se a todo o custo arranjar provas para os justificar. Para isso servem-se muitas vezes da ciência, normalmente deturpando-a.
Ando a ler um livro na net que se chama Resurrecting Racism que é precisamente uma deconstrução da ideia que @s negr@s dominam os desportos, apresentada num outro livro sob a capa da cientificidade.
Na introdução fala na pseudo-ciência de que esse outro livro se serve e compara-a com a pseudo-história dos que negam o holocausto.
Outro exemplo clássico de pseudo-ciência é o Inteligent Design, a versão modernizada do criacionismo cristão. Têm a pretensão de provar cientificamente que o planeta terra só tem uns poucos milhares de anos e coisas assim.
Com a mulher não se passa nada de diferente. A linha conservadora continua a mesma e servem-se dos mesmos truques.
Publicado por: LF às setembro 30, 2005 02:15 PM
"E, já agora, haverá ser mais bem equipado do que uma mulher para compreender o racismo? :) "
És capaz de ter razão. Todas as pessoas que sejam diminuidas socialmente seja por serem mulheres, negras, homossexuais, ... provavelmente compreenderão melhor o que é estar nesse papel.
Publicado por: LF às setembro 30, 2005 02:19 PM
eu nao sei, o nivel + elevado de testosteorna favorece tanto o desenvlvimento muscular como a agressividade, mas mulheres tem tanta condiçao de ir a guerra quanto os homens, se pois apresentam maior tolerancia, acumulam gordura que sao mais facil de quimar (podendo ficar + tempo sem alimento), e possuem tanta capacidade quanto um homem de empunhar uma arma, possuindo > visao periferica, oque acontece he que em nossa cultura-pos-romana, a mulher nao luta +, entre os celtas as mulheres iam guerra como os homens, ho seja, elas podem ir a guerra, é questao de treinamento , como um filosofo disse (queria me lembrar quem foi) quando a diplomacia falha, só a força resolve.
Publicado por: christopher às abril 25, 2006 04:24 PM
christopher,
a questão não é se a mulher pode ir à guerra ou não. A questão que eu acho que interessa é se DEVE ir à guerra.
Publicado por: LF às abril 25, 2006 06:14 PM