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setembro 11, 2005

Democracia ou ditadura da maioria (numa perspectiva inter-espécie)

Em tempos em que a paranóia do terrorismo justifica qualquer desrespeito pelo indivíduo ou pela sua privacidade, e a ordem mundial vai completando o seu processo de transformação sob a manta democrática para um fascismo global, o papel da Democracia Representativa é exactamente privar o povo de qualquer poder. A democracia é uma utopia da humanidade. Chamam de democracia o uso e abuso de poder dos governantes diante da passividade dos cidadãos; a disciplina imposta pelo medo numa ordem policial mundial; a representação no poder de uma casta para salvaguardar os seus próprios interesses, com o pretexto de defender os interesses dos passivos cidadãos aos quais a democracia só lhes reservou o voto como direito; o extermínio dos outros animais pelo egoísmo e estupidez do ser humano; a tirania exercida por uma maioria sobre uma minoria ou sobre um indivíduo que não pensa como os demais; enfim, a ditadura imposta pela ideia do direito reservado por constituição a uma determinada concentração de ideias uniformes de obrigar o “resto” a se uniformizar também. Esse “resto” pode ser milhões, mas mesmo que fosse um só ser seria repugnante. Esse ser não é um produto, não é um número de série. Esse ser está vivo, tem desejos, sentimentos. Esse ser, por mais isolado que ele esteja, possui um universo dentro dele. Um universo de ideias, de pensamentos que ninguém tem o direito de interferir.

Juliano

Como já dizia Bakunin, a liberdade de um indivíduo não deve ter um limite, limite esse que supostamente se atinge quando se começa a liberdade de um outro indivíduo. Não! É absurdo, é anti-natural, anti-humano! A liberdade de um ser não deve mesmo ter limites. A liberdade de um ser vai de encontro com a de outro, e essas se mesclam, e formam uma avalanche, que vai de encontro com a liberdade de outro, e também se mesclam, e mais uma vez, e outra... Assim formar-se-á a liberdade colectiva, sem leis humanas, apenas leis naturais. Ora, um indivíduo só é realmente livre quando o seu pensamento também o for, por isso ele não precisa de ser uniformizado, porque toda a uniformização e generalização democrática são farsas, são superficiais. Não existem seres iguais, nunca poderá existir. O indivíduo que sonha em ser livre deve começar por libertar a sua mente em primeiro lugar. O indivíduo que, usufruindo de uma suposta liberdade condicionada à lei, desrespeita a convivência natural dos seres vivos, não está realmente livre. A lei não garante a liberdade, pelo contrário, só a condiciona. A disciplina imposta não garante ordem, só incentiva a desordem. É natural que um ser que tem um desejo seu proibido se esforce ainda mais para realizá-lo. A verdadeira liberdade só será possível quando todos os seres humanos aprenderem a viver juntos em harmonia e livres de imposições ou condições entre eles e os demais seres vivos. Enquanto, em vez de educação científica e incentivo de auto-aprendizagem, se criam sistemas de controle através de uma legislação estabelecida por um grupo de indivíduos, seja maioria ou minoria, os seres vivos se afastarão cada vez mais da liberdade. Fala-se muito em ordem mundial, e à anarquia reservam-lhe a desordem, o caos, mas tirem as polícias das ruas, as opressões majoritárias e as leis elitistas que condicionam a relação dos seres, e veremos no que realmente se fundamenta a ordem vigente, esta democracia, esta liberdade, que é uma ofensa ao seu significado real. Os seres vivos nasceram sem amos, livres de condições e imposições, e o seu estado natural é esse, e se ele fosse posto em prática hoje, resultaria em desordem, caos, desigualdade, escravidão... E é fácil saber porque. Não se trataria de anarquia, porque a anarquia não consiste apenas na liberdade física, nem na autonomia económica deliberada sem base sólida, sem condições palpáveis para a autogestão. Se trataria de um triste espectáculo de exposição da educação que a democracia oferece. Se trataria de se pôr em prática tudo o que a ordem mundial ensinou mas proibiu de exercer: olhe, mas não toque; toque, mas não prove; prove, mas não engula; engula, mas não digira; digira, mas não dejecte. E assim não se passaria nem pela etapa do olhar, porque é tudo imposto e controlado. São regras de convivência criadas pela mente negligente do ser humano, esse animal arrogante diante das outras espécies animadas. A anarquia não ensina a desordem, o caos, a anarquia é a aprendizagem racional, a compreensão da civilização, do natural, a postura coerente que aspira a mais profunda liberdade e igualdade. Uma sociedade anárquica não pode ser criada apenas com a liberdade física, mas com a liberdade mental. Até a liberdade económica, para ser a base de todas as liberdades, precisa partir de uma consciência libertadora, senão o indivíduo que possui essa liberdade não quererá permitir que o seu próximo também a tenha. A liberdade mental abre caminho para a colectivização da liberdade económica, e só colectivizada garantirá a igualdade e não se transformará num privilégio de uns tantos que tratariam rapidamente de reactivar o sistema capitalista. Um indivíduo livre fisicamente, mas que possui em sua mente ganância, superioridade e desrespeito pelo próximo, não é um indivíduo livre por completo, pois ele está aprisionado pela sua insana mentalidade. Enquanto um indivíduo sonhar com a liberdade, é porque ele de facto não é livre, mas o sonho cria asas que o conduzirão à busca dela. Enquanto um indivíduo não souber viver em harmonia com os outros seres diante da liberdade sem condições, é porque ele não aprendeu o que realmente significa liberdade. Foi-lhe tirada a liberdade desde o momento em que nasceu e, embora os seres tenham o instinto de serem livres, não se pode a esta altura dos tempos exercer a liberdade sem se ter uma concepção do que ela significa, porque o instintivo está ofuscado por padrões de convivência que desarticulam o sentido natural da vida. O indivíduo que vive do trabalho assalariado não é um indivíduo livre, porque ele está preso a um ciclo de escravatura e servidão; o indivíduo que extermina um outro ser vivo também não é livre, porque as outras espécies animadas também têm o instinto de liberdade, e devem ser vistos com os mesmos olhos com que se vêem os seres humanos, caso contrário estará se negando nas outras espécies os próprios instintos humanos. Os mesmos direitos naturais dos seres humanos devem ser preservados também nas outras espécies, porque privar um ser dos seus instintos naturais é uma atitude tirânica, e não libertadora. O grau de liberdade, que é um só, ou seja, não se chega à liberdade gradualmente (no momento em que se estiver em posição favorável para se conquistar a liberdade, se deve dar apenas um passo e conquistá-la de imediato, sem recorrer a etapas que só disfarçam a privação de impulsos naturais em prol de falsos representantes desejosos de serem os próximos verdugos das aspirações libertadoras), deve ser compreendido de igual forma entre todos os seres vivos, sem distinções de espécie. Enquanto não houver harmonia natural haverá lei, porque o ser humano a criará com a falsa perspectiva de que a lei vai garantir a ordem. As leis do ser humano existem há milénios e que ordem se garantiu? Que harmonia de convivência se criou? Esta democracia desrespeita o individualismo, e assim sendo, nunca será suficiente para a liberdade, porque a liberdade parte de cada indivíduo como um impulso natural, nunca como uma imposição. Porque a liberdade só será liberdade quando todos os seres vivos forem livres, livres de qualquer imposição, condição, e submissão de espécie. Enquanto for imposto a um ser vivo a vontade de outro, a liberdade será a utopia mais aspirada pelos seres que a mantém utópica, e acorrentada pelas leis democráticas.

Juliano

Publicado por terraviva às setembro 11, 2005 10:25 PM

Comentários

Adorei o conteúdo pequeno,porém , de facil entendimento!
Parabéns!

Publicado por: Érika às maio 15, 2008 03:16 AM

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