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agosto 31, 2005
Filhxs de emigrantes têm melhores resultados na escola
É o que afirma um estudo de 2002 junto de 16.701 alunxs no final do ensino básico, levado a cabo pelo ministério da educação francês, publicado no jornal "Le Monde": quando os meios familiar e social são idênticos xs filhxs de emigrantes apresentam melhores resultados escolares, ao contrário do que pretendem as perspectivas racistas e xenófobas de direita ou extrema-direita.
"Em igualdade de circunstâncias, os alunos de origem estrangeira estão presentes em maior número nos exames do final do ensino secundário e apresentam um risco menos elevado de sair de forma precoce do sistema educativo".
Num agregado familiar em que o pai é operário e a mãe dona de casa, os alunos de proveniência magrebina têm 26,6% de possibilidades de entrarem no ensino secundário, contra apenas 20% dos alunos de pais franceses. A percentagem aumenta para 37,6% no caso de se tratarem de alunos oriundos do sudoeste asiático e apenas 12,7% quando se trata de alunos turcos (a comunidade turca parece ser a que apresenta maior dificuldade de integração no sistema educativo o que, de acordo com o autor do estudo, Jean-Paul Caille, se poderá dever a dar maior valor às respostas sociais e económicas dadas pela própria comunidade em detrimento da escola).
Caille refere também que existe maior vontade de seguir os estudos universitários por parte dxs filhxs de emigrantes.
Mais uma vez os dados desamparam as pretensões preconceituosas de associar a emigração a abandono e má prestação escolar com o intuito de demonstrar a maior apetência das comunidades emigrantes para a criminalidade e marginalidade.
LF
(dados retirados do jornal A Página da Educação, Ago/Set 2005)
Publicado por terraviva às 12:54 PM | Comentários (108)
33 Propostas para Enfrentar 9 Problemas Estruturais que originam Incêndios Florestais Inadmissíveis

Através do BioTerra cheguei a este documento da Liga para a Protecção da Natureza que apresenta 33 propostas para enfrentar 9 problemas estruturais que originam incêndios florestais inadmissíveis.
LF
Publicado por terraviva às 12:38 PM | Comentários (0)
agosto 24, 2005
A indústria dos incêndios
José Gomes Ferreira, subdirector de informação da SIC, escreveu recentemente um bom artigo sobre a calamidade dos fogos em Portugal. Levanta questões pertinentes, aponta caminhos e avança duras acusações de tentativas de silenciamento dos meios de comunicação a um antigo ministro da agricultura e ao actual executivo governamental. O artigo pode ser lido aqui e é de leitura recomendada.
(como ressalva, chamo a atenção para a indignação que a certa altura mostra sentir: "Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer". Mas alguma vez algum estado funcionou de maneira diferente?)
LF
Publicado por terraviva às 08:41 PM | Comentários (5)
agosto 22, 2005
Pico do petróleo
Seguindo a sugestão do Luis Rocha deixada em comentário, fui ao seu blog e resolvi então transcrever a tradução que ele lá tinha da primeira parte do artigo da Wikipedia sobre o pico do petróleo (ou pico de Hubbert) e pelo caminho fiz-lhe umas adaptações.
O artigo original é bastante extenso e torna-se complicado traduzir tudo, mas algumas partes que ficaram por traduzir são muito interessantes, nomeadamente as implicações catastróficas do pico do petróleo e a secção sobre as alternativas ao petróleo convencional.
LF
Pico de Hubbert
A teoria do pico de Hubbert, também conhecida como pico do petróleo, é uma influente teoria sobre a taxa de extracção e depleção a longo prazo de petróleo convencional e de outros combustíveis fósseis. Prevê que a futura produção mundial petrolífera alcançará um pico e depois declinará rapidamente. O ano preciso será conhecido somente depois de passado o pico. Baseadas em dados disponíveis sobre a produção, diferentes propostas previram o ano do pico como sendo em 1989, 1995, 1995 e 2000, ou, de acordo com a Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás (ASPO - Association for the Study of Peak Oil and Gas), 2007 para o petróleo e um tanto mais tarde para o gás natural. Isto pode conduzir a enormes consequências económicas para o mundo já que a civilização moderna depende de combustíveis fósseis baratos e abundantes, especialmente para os transportes, produção de comida, processos químicos industriais, tratamento de água, aquecimento doméstico e geração de energia. A teoria do pico de Hubbert deve o seu nome ao geofísico M. King Hubbert, que previu correctamente o pico da produção de petróleo nos EUA com 15 anos de avanço. Embora controversa, a teoria vai ganhando influência nos decisores de políticas dos governos e da indústria do petróleo. Actualmente, raramente se debate se haverá ou não um pico, mas quando ocorrerá e qual a severidade dos efeitos posteriores. Mesmo os mais generosos relatórios corporativos estimam que as reservas de petróleo não duram mais que 100 anos.

A organização ASPO predisse que o pico do petróleo ocorrerá por volta de 2007
A teoria de Hubbert
O petróleo e outros combustíveis fósseis são o resultado de processos geológicos no interior da terra. Os combustíveis fósseis foram criados quando matéria orgânica deteriorada foi comprimida no subsolo há milhões de anos atrás e atravessou determinadas alterações físico-químicas. O petróleo, tal como a generalidade das outras fontes e reservas de energia na terra (sendo a energia geotérmica, a energia das marés, e a energia nuclear notáveis excepções), é em última análise derivado do sol. Os combustíveis fósseis são energia solar armazenada e são recursos não renováveis - ou seja, existem em quantidade finita e as suas reservas não estão a ser repostas (pelo menos não a uma velocidade comparável àquela da sua extracção). Isto é verdade apesar da sua aparente abundância e da descoberta de reservas anteriormente desconhecidas.
Hubbert, um geofísico, criou um modelo matemático da extracção do petróleo que previu que a quantidade total de petróleo extraída ao longo do tempo seguiria uma curva logística (inicialmente a função logística tem um rápido crescimento, depois abranda até que acaba por parar). Isto implica que, a determinada altura, a taxa prevista de extracção do petróleo seria dada pela taxa de mudança da curva logística, que segue uma curva com a forma de um sino conhecida agora como a curva de Hubbert (ver a figura).

A curva de Hubbert é um modelo matemático da futura disponibilidade de petróleo.
Em 1956, Hubbert previu que a produção de petróleo no continente dos Estados Unidos teria o seu pico no início dos anos 70. A produção de petróleo nos Estados Unidos realmente teve o seu pico em 1970 e tem diminuído desde então. De acordo com o modelo de Hubbert, as reservas de petróleo dos Estados Unidos estarão esgotadas antes do fim do século XXI. A teoria do pico de Hubbert é mais frequentemente aplicada ao petróleo mas é aplicável a outros combustíveis fósseis tais como o gás natural, o carvão e petróleos não convencionais.
Dadas as informações sobre a produção de petróleo no passado, e exceptuando factores estranhos tais como a falta de procura, o modelo prevê a data da produção máxima para um campo de extracção de petróleo, múltiplos campos, ou para toda uma região. Este ponto máximo de extracção é referido como o pico. O período após o pico é referido como a depleção. O gráfico da taxa de produção de petróleo através do tempo para um único campo de petróleo segue uma curva em forma de sino: primeiro, um aumento lento e constante de produção; então, um aumento acentuado; de seguida mantém-se algum tempo no topo (o "pico"); depois, um declínio lento; finalmente, um declínio íngreme.
Quando uma reserva de petróleo é descoberta a produção inicialmente é pequena porque a infra-estrutura necessária não foi ainda completamente instalada. Assim que os poços são perfurados e estruturas mais eficientes são instaladas a produção de petróleo aumenta. A determinada altura, um pico de extracção que não pode ser excedido é atingido, mesmo com melhor tecnologia ou perfuração adicional. Após o pico, a produção de petróleo lenta mas progressivamente vai declinando. Ainda antes que um campo de petróleo esvazie, um outro ponto significativo é alcançado, quando é preciso mais energia para extrair, transportar e processar um barril de petróleo do que a quantidade de energia contida nesse barril. Nessa altura, não vale a pena extrair petróleo para produzir energia, e o campo deve ser abandonado. Os proponentes da teoria do pico de Hubbert defendem que isto é verdade independentemente do preço do petróleo. Este conceito é referido como a relação entre a energia extraída com a energia investida.
Previsão do Pico
A Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do Gás foi fundada pelo geólogo Colin Campbell. Defende que o modelo de Hubbert está fundamentalmente correcto, e que o mundo enfrenta o ponto intermédio, ou máximo, da taxa de produção de petróleo global por volta de 2007, depois do qual o declínio da produção começa. Potencialmente, isto poderia levar a uma grave crise global no começo do século XXI. Os proponentes desta teoria apontam o facto da taxa de produção de uma percentagem crescente de campos de petróleo estar já a declinar. Os campos de petróleo grandes e de fácil exploração são provavelmente uma coisa do passado. Espera-se que o gás natural atinja o seu pico entre 2010 e 2020 (Bentley, 2002).
O aumento global da procura de petróleo devido ao crescimento populacional e ao aumento da prosperidade económica global aumenta a taxa de depleção do petróleo. Num ano recente, 25 mil milhões de barris de petróleo foram consumidos em todo o mundo, enquanto somente oito mil milhões de barris em reservas novas foram descobertos.
Em Março de 2005, a Agência Internacional da Energia projectou uma procura global anual de 84,3 milhões de barris por dia, o que significa mais de 30 mil milhões de barris anualmente. Isto faz com que o consumo seja igual à produção, não deixando nenhuma capacidade em criar excedentes. Mesmo que houvesse, durante algum tempo, reservas suficientes que pudessem dar resposta à crescente procura global, há um limite desconhecido para o aumento da capacidade de produção, mesmo havendo investimento adicional em estruturas de produção, de transporte e de refinamento do petróleo. Também em março de 2005, o ministro argelino da energia e minas afirmou que a OPEP alcançou o seu limite de produção de petróleo.
A frase "o fim do petróleo barato", descreve o resultado final previsto. Refere-se tanto aos aspectos financeiros como aos de eficiência energética (isto é, o preço aumentaria devido à escassez e à crescente ineficiência da sua produção). Quando a produção de petróleo começou no início do século XX, os maiores campos petrolíferos recuperavam 50 barris por cada barril gasto na extracção, transporte e refinamento do petróleo. Esta relação é geralmente chamada de Retorno Energético do Investimento (EROI ou EROEI - Energy Return on Investment). A relação torna-se crescentemente ineficiente com o tempo: actualmente, só são recuperados entre um e cinco barris por cada barril usado no processo de recuperação. A razão para este decréscimo na eficiência é que o petróleo torna-se mais difícil de extrair à medida que o campo vai sendo drenado. Quando esta relação alcança o ponto onde é preciso um barril para recuperar outro barril, o petróleo torna-se inútil como energia. Nessa altura, toda a energia usada para extrair o petróleo resultaria numa perca de energia líquida; a sociedade seria mais eficiente e ficaria melhor usando essa energia restante para outros fins. Possíveis excepções seriam processos que convertessem recursos abundantes mas com menos capacidade energética como o carvão, em fontes de energia mais capazes como o petróleo. Como seria de esperar em qualquer teoria que preveja escassezes futuras de combustível, o modelo de Hubbert tem ramificações políticas, económicas e de política internacional significativas.
Crítica
Poucos negariam que os combustíveis fósseis são finitos e que fontes de energia alternativa devem ser encontradas no futuro. Em vez disso, a maioria dos críticos prefere discutir que o pico não ocorrerá em breve e que a forma da curva do pico pode ser irregular e estendida em vez de uma curva logística acentuada.
Em 1971, Hubbert usou dados de estimativas elevadas e baixas das reservas de petróleo global para prever que a produção global teria o seu pico entre 1995 e 2000. Este pico não ocorreu. Contudo, deve-se ter em conta que outros eventos que ocorreram após a previsão de Hubbert podem ter atrasado o pico, especialmente a crise energética de 1973, na qual um fornecimento decrescente de petróleo resultou numa escassez e consequentemente num menor consumo. A crise energética de 1979 e o aumento e diminuição abruptas do preço do petróleo devido à guerra do Golfo tiveram efeitos similares embora menos dramáticos no fornecimento. Do lado da procura as recessões dos inícios dos anos 80 e 90 diminuíram a procura e o consumo de petróleo. Todos estes factores teoricamente atrasariam a ocorrência do pico.
As implicações do modelo são controversas. Alguns petro-economistas, tais como Michael Lynch, defendem que a curva de Hubbert com um pico afiado é inaplicável globalmente devido às diferenças nas reservas petrolíferas, investimento político e militar, à procura e aos acordos comerciais entre países e regiões.
O Observatório Geológico dos Estados Unidos (USGS - United States Gelogical Survey) calcula que há reservas suficientes de petróleo para continuar as taxas actuais de produção por 50 a 100 anos. Um estudo da USGS do ano 2000 sobre as reservas petrolíferas mundiais previu um possível pico na produção de petróleo por volta do ano 2037. Isso é contradito por um importante executivo da indústria petrolífera saudita que diz que a previsão do governo americano é "uma perigosa sobre-estimativa". Campbell defende que as estimativas da USGS são metodologicamente distorcidas. Um problema, por exemplo, é que os países da OPEP sobre-estimaram as suas reservas para obter maiores quotas e para evitar a crítica interna. O crescimento económico e populacional podem levar no futuro a um acrescido consumo de energia.
Além disso, a estimativa da USGS parece dever tanto a questões políticas como à pesquisa. De acordo com a Administração de Informação de Energia do Departamento de Energia dos EUA, "as estimativas são baseadas em considerações não técnicas que procuram justificar o crescimento do fornecimento nacional de forma a atingir os níveis anteriormente projectados para a procura" [Annual Energy Outlook 1998 With Projections to 2020]
Críticos tais como Leonardo Maugeri chamam a atenção que apoiantes do pico de Hubbert tais como Campbell, previram anteriormente um pico em 1989 e em 1995, baseando-se nos dados da produção de petróleo disponíveis nessa altura. Ele afirma que as diversas estimativas não levam em conta o petróleo não convencional [petróleo extraído sem recorrer aos poços tradicionais, por exemplo, o heavy oil (ou petróleo pesado), o petróleo polar, o petróleo do deep ocean offshore (oceano profundo), as areias betuminosas e os xistos asfálticos] apesar da disponibilidade destes recursos ser grande e o preço de extracção, apesar de ainda muito alto, estar a cair devido à melhoria da tecnologia. (O inconveniente desta posição é que as fontes pesadas do petróleo nunca serão tão lucrativas como as fontes leves actuais, tanto nas taxas de produção como nos ganhos da energia). Além disso, ele faz notar que a taxa da recuperação dos campos de petróleo existentes aumentou de cerca de 22% em 1980 para 35% nos dias de hoje devido às melhorias tecnológicas e prevê que esta tendência continuará. De acordo com Maugeri, a relação entre reservas conhecidas e a produção corrente melhorou constantemente, passando de 20 anos em 1948 a 35 anos em 1972 e alcançando aproximadamente 40 anos em 2003. Também de acordo com Maugeri, estas melhorias ocorreram mesmo com um baixo investimento em novas explorações e na melhoria da tecnologia devido aos baixos preços do petróleo durante os últimos 20 anos. Os actuais elevados preços do petróleo podem muito bem levar a um acréscimo no investimento (Maugeri, 2004).
De acordo com o professor James H. L. Lawler uma central modular que integrasse diversas tecnologias bem adequadas num novo sistema, poderia recuperar quase todo o petróleo deixado em recuperações anteriores, enquanto que com a actual recuperação económica, apenas metade ou menos está a ser recuperada por cada reservatório. Assim, as reservas mundiais de petróleo podem virtualmente duplicar de um só golpe. O seu processo promete uma taxa de recuperação para lá dos 95%, embora consumindo apenas cerca de 3% do total das reservas iniciais destinadas às necessidades energéticas operacionais. Assim sendo, quantidades massivas de petróleo adicionais poderiam vir de sítios já conhecidos.
Há muitas outras tentativas de prever a produção de petróleo. Um exemplo é que a produção global de petróleo convencional vai ter o seu pico algures entre 2020 e 2050, mas que a extracção é provável que aumente a uma taxa substancialmente mais lenta depois de 2020. Um aumento contínuo e rápido na produção de petróleo requer uma maior exploração de fontes não-convencionais (Greene, 2003).
Tal como em Junho de 2005, a OPEP admitiu que vai "lutar" para bombear petróleo suficiente para corresponder à pressão dos preços para o 4º trimestre do ano. Espera-se que o Verão e o Inverno de 2005 levarão os preços a um novo recorde; alguns diriam que este é um bom exemplo da procura começar a ultrapassar a oferta. Outros poderiam acusar as várias forças geopolíticas nas regiões onde o petróleo é produzido. Uma outra explicação para o crescente aumento dos preços do petróleo é que é um sinal de demasiado papel moeda e não de pouco petróleo. Nesta perspectiva, preços dramaticamente altos de todos os produtos e bens imóveis nos EUA, indicam inflação crescente.
LF
Publicado por terraviva às 02:32 PM | Comentários (11)
agosto 18, 2005
OCEANOS ÁCIDOS
A Nova Ameaça
Não é só na atmosfera que o dióxido de carbono é uma praga: nos oceanos, ele produz uma imparável acidificação que coloca em perigo imediato a ecologia marinha.
Contexto: o problema do aquecimento global leva os cientistas aos mares. Os oceanos representam dois terços da superfície do planeta e desempenham um papel capital no clima. Qual? É para o saber que foram criados vários projectos internacionais, nomeadamente o World Ocean Circulation Experiment (WOCE) e o Gobal Ocean Flux Study (JGOFS). Como chave, a criação de redes de medições para tomar o pulso aos oceanos. E estes estudos já revelaram um fenómeno inquietante: a acidificação oceânica, ligada às emissões de CO2 humanas.

Decididamente, o CO2 parece bem lançado para levar o prémio de pior dejecto humano. Comparando este gás que se liberta dos escapes dos nossos automóveis todos os dias, como chaminés de inumeráveis actividades industriais, com resíduos nucleares, cuja manipulação requer recursos gigantescos, o CO2 não rivaliza. Mas, reverso da medalha, não é tão simples assim. Mesmo não sendo tóxico, o CO2 não pára de se dispersar na atmosfera, a partir do momento em que se dá à chave para ligar o motor… com as catástrofes bem conhecidas por efeito.
Mas eis que o favorecer o aquecimento climático deixou de ser a única característica do CO2; hoje, aparece como portador duma nova e não menos colossal ameaça: a de tornar as águas dos oceanos mais ácidas. E esta acidificação anuncia-se como desastrosa para a cadeia ecológica marinha. É certo que a acidificação dos oceanos é conhecida há anos pelos geoquímicos. O mecanismo até é simples: tudo o que acontece é que a molécula de CO2, depois de sair do tubo de escape, da fábrica ou da central térmica, vai dar uma voltinha pela atmosfera, e acaba quase sempre a viagem num oceano. Porquê? Porque se dissolve facilmente, e o oceano é bem mais vasto que a atmosfera em numero de átomos. A tal ponto que conta com 37 000 gigatoneladas de carbono contra somente 800 gigatoneladas armazenadas no ar. Este número contabilizou a amplitude do fenómeno em Julho de 2004. Tendo intencionado esboçar a absorção do CO2 pelos oceanos, um vasto estudo internacional, pilotado pela NOAA (National Ocean and Atmosphere Administration), pôs em evidência os resultados impressionantes: 48% do dióxido de carbono emitidos pelo homem desde o inicio da era industrial (séc. XIX) está presente nos oceanos, seja 120 biliões de toneladas de carbono. Pior, esta acumulação continua ao ritmo de 25 milhões de toneladas de carbono… TODOS OS DIAS! E esta massa colossal, que há dois séculos estava encavernada nas entranhas do planeta, sob a forma de carvão, petróleo ou gás, está a modificar profundamente a química oceânica, como explica Carol Turley, biogeoquimica no Plymouth Marine Laboratory britânico, «o CO2 pode ser relativamente inerte (1) na atmosfera, mas torna-se altamente reactivo uma vez dissolvido na água salgada, tendo reacções químicas, físicas, biológicas e geológicas».
10% Mais ácido que em 1800!

Escala de pH
Esta metamorfose de Dr. Jekill atmosférico em Mr. Hyde aquoso dá origem a iões carbonados e bicarbonatos, com os quais o CO2 está em equilíbrio, e estes iões têm um papel próprio numa série de outras combinações. Além disso, a molécula de dióxido de carbono (CO2), no preciso momento em que se liga à água, liberta um protão (H+); ora, libertar um protão numa solução, a isto dá-se um nome: acidificar (ver calão). Eis porque é que o dióxido de carbono foi durante muito tempo chamado «ácido carbónico». E segundo os especialistas, os biliões de toneladas de CO2 despejados por nós desde a máquina a vapor alterou já o pH em 0,1 , o que representa um aumento de acidez de… 10%! Memória a trabalhar: um pH é neutro em 7, abaixo é ácido, e acima é base. E estamos no início, pois as previsões fazem temer que até 2100 o oceano se acidifique mais 0,4 unidades pH. É óbvio que isto não é suficiente para tornar o oceano ácido – o oceano é com efeito muito base devido à dissolução do calcário; mas, se tomarmos o exemplo do Mar do Norte, hoje cuidadosamente estudado pelos Britânicos, este passará de 8,3 hoje para 7,8 na escala de pH. Nunca visto nos últimos 25 milhões de anos! E, a mais longo prazo, no horizonte 2250, segundo os modelos, a queda atingiria o valor pH 0,7… Números tanto mais inquietantes que «a acidificação não é um sintoma do aquecimento; isto acontece a montante», explica Laurent Bopp, especialista do ciclo do carbono no laboratório de ciências do clima e do ambiente de Saclay, França. Que haja aquecimento ou não, ela continuará, enquanto as emissões de carbono continuarem. «Vamos certamente herdar um oceano diferente, confirma Peter Brewer, investigador no Monterey Bay Aquarium Research Institute na Califórnia. Já o é em larga medida em termos químicos. E biologicamente é provável que aconteça o mesmo».
De momento, prever os efeitos da acidificação sobre os seres vivos é um quebra-cabeças. Mas não há duvidas que os organismos que povoam os oceanos serão afectados. Para começar porque as concentrações de nutrimentos e a forma em que existem, estão dependentes do pH. O fosfato inorgânico, por exemplo, ou o amoníaco, veriam mergulhar as suas concentrações se as alterações se realizarem. Ora, a abundância e composição do plâncton estão estreitamente ligadas à presença de nutrimentos e à sua natureza. Que consequências podemos então esperar? Para já, ainda não temos conhecimentos necessários para formular uma hipótese verificável, mas vários projectos de estudo deverão permitir saber mais em breve.
Mais grave ainda é o caso dos organismos de esqueleto calcário. Pois os iões carbonados são utilizados por uma série de seres vivos, de uma extraordinária diversidade. Juntando os ditos carbonatos com cálcio (muito abundante no mar), estes organismos formam a calcite (CaCO3), um material omnipresente que se encontra tanto nos bivalves ou amêijoas como no esqueleto dos equinodermes como as estrelas-do-mar ou os ouriços, ou ainda em microscópicos organismos unicelulares. Ora, a acidez faz decair a quantidade de iões carbonatos disponíveis: para a duplicação do carbono atmosférico (prometido para 2050), a quantidade de iões carbonados é dividida por a meio. E assim, como vão reagir os seres dos oceanos?

Peixe-das-Rochas com mutação
Esqueletos anormais

Crescimento anormal de recife de coral
Que seres vivos no futuro?

Aragonite na forma química. Para imagens reais, uma pesquisa de imagens é fácil
É então num contexto químico radicalmente novo que a fauna oceânica vai ter de aprender a viver.
O CO2 vai poder esterilizar o oceano? Com certeza que não. Como sublinha Ken Caldeira, «enquanto houver luz e nutrimentos, os seres vivos estarão lá para os explorar, que outros virão comer, etc.». Mas quais seres vivos, e com que consequências para a espécie humana? As pesquisas esforçam-se por tentar responder o mais brevemente possível. Quanto ao que seria necessário fazer, a resposta é infelizmente sem escapatória: reduzir as emissões de CO2. Até agora, é necessário constatar que não conseguimos. Com este novo elemento no dossier, será que é desta que abrimos o processo do nosso dejecto público nº 1?
O primeiro-ministro britânico Tony Blair tinha prometido levar o problema aquando do último G8, mas… as manobras politicas, indexadas ao preço do petróleo, levaram a umas quantas acções de propaganda, às quais se vieram juntar, para maior consolo de uns quantos tiranos, concertos e atentados.
Tudo para alegria e excitação dos animais marinhos…
Adaptado de Science et Vie nº 1054, Julho de 2005 por DM
Outras leituras:
http://www.bbsr.edu/pubs/cdi04/cdi04acid/cdi04acid.html
http://www.bbc.co.uk/radio4/science/frontiers_20050427.shtml
http://www.bbc.co.uk/nature/environment/conservationnow/global/
http://www.livescience.com/environment/050630_oceans_acid.html
http://www.unesco.org/science/edito_en09.shtml
e muito, muito mais.
Publicado por terraviva às 07:08 PM | Comentários (6)
agosto 01, 2005
Vegetarianismo – Por uma vida sem crueldade

Há três vectores principais que podem levar à escolha de uma dieta vegetariana:
Os direitos dos animais
A produção intensiva de carne, que é a que fornece grande parte dos alimentos que consumimos, é uma tortura e uma forma cruel e desnecessária de produzir dor aos animais. Podemos imaginar com facilidade o que os animais sentem devido à semelhança dos nossos sistemas nervosos. Porcos, vacas e galinhas, por serem os animais mais consumidos (milhões por ano só em Portugal) são as principais vítimas desta indústria do sofrimento. Deixaram de ser animais para se tornarem produtos de consumo, com os seus interesses negligenciados ao limite, passam pela vida confinados, muitas vezes sem verem a luz do dia e sem a possibilidade de se movimentarem. São frequentemente mutilados a sangue frio, cortam-lhes as orelhas e os órgãos genitais, marcam-nos com ferros em brasa. Crescem muito mais rapidamente do que é natural devido à quantidade de hormonas que os fazem ingerir de forma que as patas não aguentam com o seu peso e ficam nesta angústia até à hora da morte. Transformam-nos em máquinas de produzir ovos, leite e carne. As crias são afastadas das progenitoras à nascença e entram por sua vez no mesmo ciclo de exploração.
O impacto ambiental
A indústria da carne causa graves problemas ambientais:
- a devastação das florestas transformadas em pastos para produção animal e de alimentos para esses animais;
- o consumo excessivo de água, um bem escasso e precioso;
- os milhões de toneladas de dejectos atirados para os rios;
- o gás metano libertado pelo gado contribui grandemente para o efeito estufa;
- em média, para cada refeição de carne produzida são usados os recursos que poderiam servir para produzir 10 refeições baseadas em vegetais.
A qualidade nutricional
No mundo moderno industrializado a principal causa de morte é devida a doenças cardiovasculares ligadas à falta de exercício e à má alimentação. Nos EUA existe uma verdadeira epidemia de obesidade e a Europa caminha no mesmo sentido. Ingere-se demasiadas proteínas, gorduras saturadas e açúcares.
Os povos que consomem produtos animais são mais susceptíveis ao cancro da mama, próstata e cólon, ataques cardíacos, obesidade, osteoporose, artrite, diabetes, asma, pedra nos rins e impotência. Com uma alimentação vegetariana é menor o risco de desenvolver estas doenças.
Além disso, a carne contém acumulações de pesticidas e outros produtos químicos até 14 vezes mais concentrados do que em alimentos vegetais.
Em forma de conclusão, pode-se dizer que a indústria de carne é um negócio muito lucrativo para alguns mas com imensos prejuízos para todos, e pode facilmente ser contrariada desde que o consumo de carne diminua e aumente o de cereais, vegetais, leguminosas, etc. Uma dieta vegetariana é uma opção racional, responsável e de futuro.
Maria Silva e LF
Publicado por terraviva às 10:58 PM