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julho 26, 2005

A guerra que o estado e o capital nos movem...

Esta guerra cruel, impiedosa, que mata sorrateiramente, que não tem frente mas é feita de inúmeras batalhas, que tanto surge nos países “desenvolvidos” como nos do “3º Mundo”, esta é a guerra de classes. É esta guerra sem quartel que os ricos e poderosos movem contra os pobres e os despojados.

Em Portugal, desde há cerca de 20 anos sucedem-se os ataques contra as garantias e direitos laborais conquistados logo a seguir ao 25 de Abril de 74, numa altura em que a burguesia, juntamente com as hierarquias militares ou dos partidos, sabia que não podia derrotar a “rua” se esta se mobilizasse de forma unida para sacudir completamente o jugo que apenas fora abanado.

Actualmente, o governo leva a cabo mais uma ofensiva nessa guerra de classes, munindo-se da força de uma ditadura da maioria, que não de verdadeira legitimidade democrática, pois fez exactamente o oposto do que prometera, servindo-se de um ardil de “surpresa” perante o estado das contas públicas, que apenas convence quem deseja sê-lo.

in A Batalha n.º 211

LF

Deixemos bem claro o seguinte: o que preocupa o poder em Portugal (a burguesia e o seu governo) não é o famoso défice, é a capacidade de resistência da classe trabalhadora e a sua combatividade, pois é um país que já passou por períodos de maior desafogo, já se viveram também momentos de acesa luta popular e operária, estando isso inscrito na memória de grande parte das pessoas.

Isto, apesar do reformismo mais que comprovado de todo o movimento sindical, tendo como expoentes tanto a CGTP como a UGT, as quais se têm sentado à mesa de “negociações” para retirar direitos consagrados, fazer um “nim” ou uma “resistência simbólica” ao código “anti-laboral”, etc.

Como precisam de uma submissão total, é impensável que deixem de pé uma função pública onde subsista trabalho com direitos, com dignidade de carreiras, sem contratosindividuais, sem precariedade. Tudo isto tem de acabar na função pública e na administração pública para nunca mais ser negociável no privado e assim satisfazer a oligarquia reinante.

Os dirigentes sindicais sabem perfeitamente que estes são os planos estratégicos da classe dominante. Porém, como seriam incapazes de se lhe opor (estão demasiado comprometidos com ela) vão dando a ilusão de combatividade, por forma a satisfazer as suas bases. Estas, preferem ter fé, a olharem um pouco criticamente as movimentações que, sempre do alto, são decretadas pelas ilustríssimas cabeças dos dirigentes sindicais.

Fosse o movimento sindical mais horizontal e haveria neste período de Maio - Junho plenários nos locais de trabalho (a lei prevê essa possibilidade, mas os sindicatos nunca a aproveitam) onde seriam discutidas as diversas formas de luta, onde se elegeriam comissões de base e seus delegados para levar a cabo a coordenação com outras comissões... Assim e só assim, poderia o movimento dos trabalhadores e os seus sindicatos agir de forma eficaz contra o ataque sem precedentes que o P”S” desencadeou contra todos os trabalhadores, não apenas os da administração pública.

Resta acrescentar que, se o governo levar à prática a promessa/ameaça de só permitir a entrada de um trabalhador na administração pública, por cada dois que se reformem, tal política será correlativa do abandono completo ou degradação de inúmeras estruturas, nomeadamente na saúde pública e nas escolas, criando assim artificialmente as condições para os privados poderem explorar os que, embora com sacrifício, ainda conseguem pagar o internamento na clínica, o colégio dos filhos, etc. Chamam a isso “libertar o mercado”...
Mas criam também mais geral e funda miséria, onde ela já é tão grande!

Não desprezemos porém o adversário. Se ele avança com estas medidas gravosas é porque sabe até que ponto os sindicatos estão enfraquecidos. Exemplo disso, foi a recente greve de docentes que se realizou na altura dos exames nacionais do final do ensino básico (9º ano) e do secundário (12º ano). Perante a previsão de uma greve tão dura, apenas uma ampla consulta asseguraria a coesão para enfrentar colectivamente os actos de repressão que muito provavelmente surgiriam. Porém, as estruturas sindicais burocráticas decretaram a greve mas não promoveram de forma generalizada assembleias que ratificassem as propostas de greve, nem fizeram o mínimo esforço de mobilização; nem sequer distribuiram eficazmente aos cartazes e folhetos pelas escolas! Isto diz muito sobre o estado comatoso do sindicalismo no nosso país.

Já há tempos que tal se verifica. O facto dos Burocratas se agarrarem o poder, é análogo ao comandante que prefere deixar-se afundar com o próprio navio. Porém, neste caso, sem qualquer honra ou glória. A análise confirma-se: eles fazem com que gerações mais novas não vejam qualquer interesse em se envolverem em actividades sindicais, que consideram como meras extensões das actividades partidárias. Porém, existe outro sindicalismo, outra forma de defendermos os nossos direitos e de nos relacionarmos. Ele está vivo em correntes anti-autoritárias, não vinculadas a partidos políticos, o sindicalismo de base, de inspiração libertária, apenas comprometido com as decisões tomadas em assembleia. Onde não há “chefes” ou “líderes”, mas apenas mandatados entre iguais, tendo cada membro da direcção o seu mandato revogável a todo o momento, por decisão da assembleia e não se aceitando burocracias ou “profissionais” do sindicalismo.

in A Batalha n.º 211

Publicado por terraviva às julho 26, 2005 12:52 PM